8 de março: uma escuta

Sou homem. 
É importante que esta seja a primeira coisa a ser dita neste texto, pois o que compartilho aqui não vem de uma vivência em primeira pessoa, mas de uma “escuta“.

Sou psicólogo, e nos atendimentos muitas vezes utilizo uma expressão em que digo “conseguir ter noção, mas não conseguir ter a dimensão” daquilo que estou vendo ou ouvindo.

Compreendo, analiso, ajudo a elaborar, mas estou do lado de fora, sou estrangeiro dessas vivências todas e, portanto, tudo o que disser, pensar ou sentir, sempre terá uma lacuna. 

Levando em consideração meu lugar e a existência dessas lacunas, gostaria de compartilhar algumas reflexões. 

Há muitos anos me considero feminista, com todas as contradições e questões que isso promove. E há muitos anos acompanho os movimentos do 8M (o oito de março), o Dia Internacional da Mulher.

Sempre afetado, aprendendo, refletindo e tentando compor a luta, ecoar a voz, silenciar, potencializar discursos e ações, desconstruir e reconstruir referências, ideias, sentimentos, desejos e percepções que me constituem enquanto homem e pessoa. 

Mas o 8M de 2026 me atravessou diferente!

As pautas históricas estavam lá: fim da violência contra mulher, combate ao machismo, igualdade de direitos, legalização do aborto, etc. Algumas pautas contemporâneas foram agregadas, como o fim da escala 6×1, a criminalização da misoginia e a denúncia dos efeitos nocivos do discurso redpill. No entanto, havia uma questão que vinha de outro lugar:

“DEIXEM AS MULHERES VIVAS!”

Me parecia uma mistura de raiva, ódio, medo e desespero que se expressava em vários cartazes, conversas, palavras de ordem e conteúdos que circularam nas redes sociais. 

Os números das violências contra as mulheres são bizarros de assustadores e revoltantes, mas a questão do feminicídio me pareceu estar ocupando um outro lugar este ano.

Nos últimos meses as tantas notícias trágicas de mulheres assassinadas produziu um grande impacto, até mesmo os homens mais conservadores expressaram seu espanto. No entanto, foi se configurando uma dimensão subjetiva que me parece ter colocado as mulheres em outro lugar com muita intensidade: o medo de morrer, de ser a próxima vítima, de se tornar a próxima notícia. 

Como se não bastasse todos os enfrentamentos que a condição de gênero expõe e violenta as mulheres cotidianamente em nossa cultura, o viver sob ameaça constante, quando não mata, adoece. 

Neste contexto, a raiva e o ódio se configuram não apenas como expressão de consciência e saúde, mas como necessidade de sobrevivência: 

“PAREM DE NOS MATAR!”

Não há nada mais objetivo e concreto do que o grito pela vida. Estamos falando de um dos direitos mais básicos do nosso pacto civilizatório que também tem estado sob constante ameaça: O DIREITO À VIDA! 

Artigo 3° da Declaração Universal dos Direitos Humanos: “Todo ser humano tem direito à vida, à liberdade e à segurança pessoal

Vida, que para mim, é uma das grandes marcas das mulheres, as únicas que carregam em si a potência de gerar uma nova vida. E àquelas nas quais, em nossa cultura, foi legado o trabalho de cuidar e zelar pela vida. E são justamente elas que vivem, cotidianamente, acompanhadas pelo medo da morte! 

Não apenas as tantas mortes simbólicas, mas a morte concreta, onde as flores vão em cima do caixão.

Neste 8M de 2026, fui atravessado por este “medo-desespero-raiva-ódio” que tem composto o cotidiano das mulheres em nosso país, para além de todas as questões legitimadas históricamente de luta das mulheres por igualdade, justiça e liberdade: o medo de morrer!

Estamos falando de uma condição subjetiva de guerra. Sofrimento, medo, viver sob ameaça, ser impactada constantemente pelas velhas notícias das novas vítimas. 

Diante de tudo isso, é preciso fazer esta escuta, é preciso fazer esta denúncia, é preciso problematizar este fenômeno junto aos homens e é preciso compor um pacto pela vida.

De fato, precisamos construir um outro mundo, este nosso modelo de sociedade mata! 

Forte abraço!
Rafa Dutra 

#TerapiaEmDia

A Psicologia está no hype!

Antigamente era comum ouvir um “não sou louco, não preciso ir no psicólogo“. Aliás, a gente escuta isso até hoje, mas diminuiu bastante. 

O imaginário social a respeito da Psicologia foi construído em cima disso, o trabalho da psicóloga era o trabalho com os desajustados, os anormais, os loucos, ou então era entendida como coisa de gente rica que fazia análise sei lá quantas vezes por semana porque, na verdade, não tinha problema na vida. 

A história da Psicologia é longa, em movimento e cheia de contradições. Enquanto profissão regulamentada no Brasil, tem pouco mais de seis décadas. E neste tempo, muita coisa aconteceu. 

No entanto, de uns tempos pra cá, a Psicologia vem ocupando um outro lugar no imaginário social, com certo destaque e o aumento pela procura, tanto pelo serviço quanto pelo desejo de formação, o que poderia ser visto apenas como algo positivo aos desavisados, mas existem alguns atravessamentos que precisamos pensar. 

Primeiro, o tema saúde mental se impôs como algo que a sociedade precisa discutir e atuar a respeito. Infelizmente, não porque estamos num processo de prevenção e promoção de saúde mental, mas porque estamos afundando numa epidemia de adoecimento. 

Ansiedade, depressão, exaustão, suicídio, burnout, transtornos dos mais variados tipos e estatísticas assustadoras sobre várias questões relacionadas à saúde mental, potencializadas pela Pandemia de 2020, colocaram este tema no lugar de destaque que ele ocupa hoje. 

O problema é que, capturada pela noção neoliberal de sujeito, pela lógica da patologização da vida e pelo ideal da sociedade da performance, a Psicologia tem se prestado, ideologicamente, a um desserviço à sociedade.

Quando digo Psicologia, me refiro à Psicologia tradicional hegemônica, pois felizmente existem Psicologias que atuam a partir de outras perspectivas e oferecem resistência a essa lógica. 

No entanto, é fato que existe uma cumplicidade ideológica que naturaliza e reduz o fenômeno social da produção do adoecimento em saúde mental para uma questão de fazer terapia individual e praticar autocuidado, rebuscado de discurso neuropsi sobre “regular o ciclo circadiano, dopaminas e funcionamento cerebral“, dando aquela roupagem de discurso médico-científico ancorado no poder que o jaleco branco tem em nossa sociedade. 

Hoje em dia, a galera coloca #TerapiaEmDia na descrição de perfil em app de relacionamento, faz storie falando da terapia (até com print da sessão online!), e fazer psicoterapia, além do status social (porque continua sendo algo que a imensa maioria da população não tem acesso), se tornou mais uma tarefa a ser realizada no combo do “performar saúde“. A academia tá paga e a terapia está em dia. 

Se por um lado existe uma maior aceitação e um reconhecimento da importância da Psicologia em nossa sociedade, por outro, é preciso tomar cuidado para que a Psicologia não se preste ao lugar de reproduzir o que vem promovendo o adoecimento, a visão individualizante, culpabilizante e patologizante de saúde mental, com tempero da noção do sujeito-empreendedor-de-si em busca da sua melhor versão tão bem construída pela lógica neoliberal de produzir subjetividades e propagada pelas vidas editadas nas redes sociais. 

Ano passado, assisti uma fala da então candidata e hoje presidente eleita do Conselho Federal de Psicologia, Ivani Oliveira, de que “a Psicologia não poderia se prestar a ajudar as pessoas a suportar o insuportável“. E é preciso fazer essa denúncia! 

Tem sido dificil construir um cotidiano onde o cuidado em saúde mental seja um dos pilares da vida frente aos moldes nos quais a sociedade se organizou.

Fazer terapia” pode ser uma experiência riquíssima, cheia de descobertas, aprendizagens, reflexões profundas, pequenas e grandes transformações, uma grande oportunidade de crescimento, elaboração de um novo projeto de vida, de compreender mais sobre si, sobre as relações e sobre a sociedade, mas também pode ser uma experiência alienante, que reproduz violências e a lógica perversa que constitui o processo de adoecimento que estamos vivendo.

Como diante de todo modismo, é preciso atenção e cuidado, a terapia estar em dia significa o que, afinal?

É preciso uma percepção crítica sobre este fenômeno e, principalmente, um posicionamento crítico frente a isto tudo que esta posto. A Psicologia tem um histórico de (re)produzir ideologias, alienações e violências, e a história se repete. Desta vez, se expressando nos conteúdos em redes sociais, no marketing pessoal, no empreendedorismo psi e na busca por performar saúde mental, sucesso e felicidade.

Que o espaço e o processo da terapia seja um espaço de acolhimento, denuncia, aprendizado e reflexão, mas que seja, principalmente, um espaço de conscientização!

Forte abraço!
Rafa Dutra