A Psicologia e as lutas sociais

“Qual é a realidade que você quer contribuir para mudar?”

Esta era a provocação que Silvia Lane fazia aos seus orientandos, e esta foi a provocação que quis deixar às participantes do I Encontro de Psicologia e Compromisso Social da USCS.

Organizo eventos de Psicologia há mais de 20 anos, desde que era estudante, e participar da organização da “I Semana de Psicologia e Compromisso Social da USCS: A Psicologia e as lutas sociais” foi um desafio muito especial. Um marco histórico e um posicionamento político importante em nosso curso.

Promover e participar destes espaços de encontro me faz muito sentido e é uma das minhas maneiras de contribuir com a transformação da formação em Psicologia, tarefa na qual me dedico desde que ainda era um estudante e que me acompanha em diversas frentes de trabalho e militância.

A história da Psicologia brasileira não nos orgulha. Enquanto ciência e profissão estivemos muito alinhadas ideologicamente na produção do ajustamento social, na reprodução das violências da exclusão e defendendo, explícita ou implicitamente, as pautas e projetos de sociedade de uma classe dominante.

Ainda hoje está. Apesar dos muitos avanços, das denúncias, das críticas, da ampliação de possibilidades de atuação e das suas construções teóricas, a Psicologia tradicional hegemônica ainda se coloca como um conhecimento e uma prática alinhados à visão de mundo e aos valores neoliberais, com teorias e práticas individualizantes e patologizantes.

O encontro entre a Psicologia e os movimentos sociais é um encontro urgente e necessário. Por um lado a Psicologia tem contribuído tanto para a compreensão da constituição do fenômeno das violências e seus impactos subjetivos quanto para o manejo de cuidado e enfrentamento das mais diferentes opressões e injustiças que afetam as pessoas e constituem uma sociedade estruturalmente desigual.

Por outro lado, os movimentos sociais convocam a Psicologia a se olhar no espelho, repensar e avançar em suas pesquisas e em suas práticas. A Psicologia Social e os movimentos sociais têm papel fundamental na denúncia, na crítica e na construção de um posicionamento ético-político alinhado ao combate das violências e injustiças e à construção de uma sociedade mais justa, democrática e igualitária.

O projeto do compromisso social da Psicologia, enquanto um projeto profissional posicionado nesta direção, é uma das mais fortes expressões do diálogo e do encontro da Psicologia com as lutas sociais no Brasil e na América Latina.

Luane Santos, psicóloga e professora da UFBA, pesquisou sobre o projeto do compromisso social da Psicologia em seu doutorado (que fez na PUC SP com orientação da Ana Bock em 2017) e em sua pesquisa identificou 9 grandes expressões desse projeto:

  • Defesa dos Direitos Humanos e Sociais
  • Enfrentamento das temáticas ligadas à dominação em suas diversas expressões
  • Ampliação e fortalecimento das instituições democráticas
  • Crítica ao pensamento colonizado
  • Defesa e Organização da Psicologia Latinoamericana
  • Reformulação de saberes e práticas na Psicologia
  • Centralidade no exercício crítico
  • Inserção e qualificação do trabalho das psicólogas nas políticas públicas
  • Ênfase no trabalho coletivo e interdisciplinar

Essas são as diferentes expressões de um pensar e fazer a Psicologia com compromisso social, com um compromisso com a transformação social na direção da produção de uma vida digna para cada pessoa.

Há uma provocação popular de que “Psicologia sem consciência de classe é coaching“, e de fato, Psicologia sem consciência crítica e compromisso social é tecnicismo de ajustamento e controle social, independente da “nova roupagem” com a qual tentam disfarçar isso, sobretudo pela falácia da neutralidade científica.

O projeto do compromisso social e o posicionamento ético-político alinhado às lutas sociais não pertencem a uma determinada perspectiva teórica ou a um campo de atuação específico, este é um projeto plural, construído por estudantes, professoras, pesquisadoras e psicólogas que fazem a Psicologia todos os dias e em todos os lugares onde ela está.

É preciso que a Psicologia saiba responder qual realidade ela quer contribuir para mudar!

Forte abraço!
Rafa Dutra

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