
Dezenove de abril é Dia dos Povos Indígenas, um dia político para celebrar a história e a cultura indígena, mas também de reafirmar a luta pela proteção e a defesa dos direitos de um povo que enfrentou um dos maiores genocídios da história da humanidade. Culturalmente um dia extremamente importante, pessoalmente, um dia que com o passar dos anos foi ganhando um significado novo para mim.
Na época da escola era “Dia do Índio”, e eu não me lembro de ter (ou se teve eu não me interessava naquele tempo) alguma discussão com mais profundidade sobre a importância da visibilidade da história e da cultura indígena.
Quanto mais dou meus pequenos passos na compreensão da nossa história, sobretudo na história do nosso país e da América Latina, mais percebo o esforço necessário para descolonizar minha percepção de mundo, minha “cabeça” e meus “olhos”.
Os povos indígenas encantam, como (quase) tudo que é diferente. E este encantamento, atravessado por todas as narrativas construídas pela história, produz romantização, alienação, ignorância, distanciamento e uma ideia de “nós” e “eles”. Nós, os “homens brancos”. Eles, os “indígenas”. Esta foi parte de uma provocação da psicóloga Pâmela dos Santos da Rede de Atenção Indígena da USP em uma atividade que tivemos no Coletivo de Psicologia Sócio-Histórica na semana passada que me mobilizou bastante.
Estas provocações evocaram a memória de uma aula de Filosofia da Educação durante o mestrado em que o Prof. Jean Lauand falou sobre a língua espanhola ter a expressão “nosotros“, que é traduzida para o português como o simples “nós”, mas que fala de algo mais, porque fala sobre um “nós e os outros”, fala dessa ideia de unidade junto ao diferente, uma possibilidade para ir além do nós, os nossos, e eles, os outros!
Temos, óbvio, muitas diferenças, mas temos também muitas semelhanças. Há muito a aprender, sem a ideia predatória de uma expropriação cultural, e há também muito o que ensinar, sem a ideia também predatória de colonizar. Há muito o que trocar, baseado em uma ideia solidária e potente do encontro multicultural.
Meu interesse pela cultura indígena foi sendo costurado nos últimos dez anos a partir de quatro grandes movimentos: primeiro ao me interessar mais pela história do Brasil, depois pelas discussões sobre colonização/descolonização de subjetividades e de produção de saberes na Psicologia latinoamericana. Também me aproximei em meu processo de interesse nas discussões e vivências da espiritualidade, tanto pelo Xamanismo quanto pela Umbanda, e por fim, pelo contato direto com a arte indígena, sobretudo a literatura. Tem sido um movimento interessante, mas ainda me sinto engatinhando nesta jornada.
De modo geral, percebo este interesse da sociedade e das pessoas pela cultura indígena crescendo, infelizmente de maneira despolitizada e acrítica na maior parte das vezes, mas quando tento fazer uma leitura, tenho como hipótese um sentimento de desesperança e desespero que nos leva até estes saberes:
A promessa da felicidade no “mundo civilizado” do capitalismo urbano faliu e estamos sendo massacrados diariamente por este modo de vida. Os indígenas também foram, resistiram e sobreviveram. Talvez em algum lugar se sustenta uma ideia de que este povo tenha algumas respostas para estas angústias que mal conseguimos nomear.
Penso que este interesse e esta busca possam estar pautados por estes sentimentos não nomeados e talvez nem elaborados de que os indígenas tenham as respostas e as saídas para o caos do mundo que vivemos.
Sendo sincero, eu não acho que eles tenham!
Mas acho que têm muito a contribuir na construção das saídas que precisamos para construir um mundo outro que não este que aí está.
Acredito na potência da ancestralidade, o futuro é ancestral sim, mas não só. Acredito na potência do encontro para produzir o novo, precisamos do novo, precisamos construir um mundo outro, uma vida outra. A vida não está boa, e todo mundo sabe disso, embora nem sempre tenha facilidade em assumir.
Falando em vida, um dos conceitos indígenas que mais se popularizou nos últimos anos é o conceito do “bem viver“. A possibilidade de pensar uma outra relação com a natureza, com o território, com a comunidade e com a própria vida. Pensar em outros valores que orientam as relações, as escolhas e a vida como um todo, desde a vida cotidiana até a compreensão a vida enquanto os grandes significados da nossa existência.
Seria o bem viver uma utopia?
Não sei. Mas que nos ajude a caminhar em outras direções, pois estamos caminhando em direção ao abismo.
Neste Dia dos Povos Indígenas que possamos dar visibilidade a história e a cultura indígena, com encantamento, com crítica, com troca, com respeito e com o coração aberto para construir este “nosotros” utópico e nos engajar num processo de repensar a sociedade e a nossa vida. Mas que possamos emprestar nossos corpos e nossa voz à luta pelos direitos indígenas também!
Que não seja preciso que todo ser humano vá até a lua para ver com os próprios olhos que vivemos todos em uma mesma casa comum e que somos companheiros nesta jornada, com muitas semelhantes em meio as nossas diferenças; bem como não seja preciso adoecer de maneira grave para perceber que a vida precisa ser mais do que trabalhar, consumir, acumular e morrer.
Em guarani, a Filosofia do Bem Viver é chamada “Tekoporã“. Um conceito político e espiritual que, em tradução, seria teko (caminho/modo de vida) e porã (belo/bom). Ou seja, o “belo caminho”, ou o “bom modo de vida”. E vivemos tempos em que precisamos de novas referências sobre como construir nossas vidas e nossos caminhos.
Que tenhamos força para resistir e sabedoria e coragem para construir uma vida bonita!
Forte abraço!
Rafa Dutra