
Não sou especialista neste tema, e este precisa ser o ponto de partida dessa conversa. Sou um curioso/interessado na discussão sobre a Psicologia e o mundo digital, e me coloquei o desafio de fazer uma fala de abertura de um evento que discute justamente essa relação, então mergulhei nas minhas próprias reflexões, em leituras de artigos, notícias, resoluções, cartilhas e também em interações com IA para pensar o que diria, pois são muitos os caminhos para construir uma reflexão. Este texto é um ensaio livre e inicial sobre algumas provocações que quero compartilhar, sem rigor científico ou qualquer pretensão que não seja te colocar a pensar sobre este tema.
Para começar, é válido compreender que vamos dialogar duas grandes categorias: a “Psicologia” e o “Mundo Digital”, a Psicologia enquanto Ciência e Profissão, seus diálogos com a Filosofia, a Sociologia, a Antropologia e a Medicina, mais recentemente com as Neurociências, uma área do conhecimento cheia de contradições – como tantas outras – que se dedica a compreender a “psique”, o comportamento humano, a constituição da subjetividade, os processos cognitivos/afetivos, as relações do ser humano com ele mesmo, com o outro e com o mundo e está no centro da discussão sobre cuidado em saúde mental.
Por outro lado o mundo digital, um ecossistema tecnológico em que vivemos, composto por redes de dispositivos conectados, plataformas, algoritmos, dados e interfaces que mediam cada vez mais nossas relações. Ele não é apenas um conjunto de ferramentas externas, mas uma camada de realidade que se sobrepõe ao mundo físico (offline) — e, em muitos aspectos, o reconfigura. O mundo digital é hoje o meio social, econômico e simbólico predominante em que os processos humanos — incluindo o psíquico — se constituem.
A história da humanidade é marcada por algumas “revoluções” que mudaram seu curso, desde a Revolução Neolítica (10.000 A.C.) que foi a transição do nomadismo e da caça para a agricultura, a pecuária e a construção das primeiras comunidades permanentes de grupos de humanos até a mais recente, a Revolução Digital, com a invenção dos computadores, da internet e da Inteligência Artificial, uma Revolução que estamos vivenciando in loco e que alguns defendem estar sendo um marco de transição do “homo sapiens” para o “homo digitalis”.
Uma das coisas que chama muita atenção é a velocidade e o tamanho da transformação no modo de vida que esta Revolução Digital tem produzido. Se a Revolução Industrial, que foi a marca de introdução do capitalismo como modo de vida predominante da humanidade, durou mais de um século para se consolidar (séculos XVIII e XIX), a Revolução Digital em poucas décadas está impactando e transformando todas as esferas de expressão da experiência humana.
A maneira como estudamos, trabalhamos, nos comunicamos, consumimos informações, nos divertimos com entretenimento e jogos, compramos produtos e contratamos serviços, nos relacionamos social, amorosa e sexualmente, tudo isso foi completamente transformado pela Revolução Digital, sobretudo depois da criação do smartphone, que embora teve versões mais simples desde os anos 90, foi em 2007 com o lançamento do Iphone que a tela multitouche e os aplicativos passaram de um computador profissional ou residencial para um computador pessoal que acompanha a pessoa em todos os momentos de sua vida. Em menos de duas décadas essa invenção mudou tudo, e como estamos vivendo intensamente essas mudanças, muitas vezes não somos capazes de perceber.
Uma frase conhecida do escritor português José Saramago diz que “para ver a ilha é preciso estar fora da ilha”, mas não estamos fora da ilha, estamos dentro de todas essas mudanças e sendo impactados por todas elas diariamente e a todo instante, metaforicamente, estamos tentando sobreviver e não nos afogar, não conseguimos ver ilha nenhuma.
Esta Revolução Digital começou muito timidamente na segunda metade do século XX com os primeiros computadores gigantes que ocupavam o tamanho de uma sala e ficavam apenas nas empresas e indústrias, depois começou ganhar escala nos anos 80 e 90 com os computadores de uso doméstico e a chegada da internet e no início dos anos 2000 com os smartphones, as redes sociais, os aplicativos, o e-commerce, etc. Atualmente estamos vivendo a mais recente grande onda desse processo, a Inteligência Artificial, um tema polêmico e controverso que não fazemos muita ideia de qual será o real impacto e as transformações que irá produzir na humanidade.
Tudo está acontecendo ao mesmo tempo, em todos os lugares e agora. Os dados sugerem que em 2026, 3 a cada 4 pessoas no mundo têm um smartphone e estão conectados, vivenciando a presença online. O Brasil é o segundo país do mundo em tempo de tela, estima-se que os brasileiros passam 9h por dia nas telas, sendo cerca de 3h nas redes sociais. Esses dados levantados pela “Eletronics Hub” são assustadores. Como professor de Psicologia Escolar gosto de fazer as contas de quantas horas a gente passa na escola para mostrar o tamanho do impacto desta instituição na nossa vida (passamos de 15.000 a 20.000 horas na escola), que são cerca de 18 a 22 anos de nossas vidas. Atualmente passamos mais de 3.000 horas nas telas por ano. Conseguem dimensionar o impacto?
Minha leitura de mundo se constrói a partir da Psicologia Sócio-Histórica, e Silvia Lane fazia uma provocação de que as pesquisadoras do século XXI precisariam estudar o ser humano do século XXI, pois as pesquisas dos anos 80 e 90 respondiam ao ser humano daquele tempo. A compreensão da constituição da subjetividade como processo social e histórico nos faz estar sempre repensando sobre um sujeito em movimento e um sujeito de seu próprio tempo. Quem é este ser humano que se constrói, se relaciona e tem sua experiência humana nestes nossos tempos em que a vida dentro e fora do mundo digital se entrelaçam?
Quando começamos a ler sobre essa relação da Psicologia com o mundo digital, as primeiras coisas que aparecem estão mais relacionadas às questões das Neurociências, os impactos do tempo de tela no funcionamento cerebral: neuroplasticidade, dopamina, vício, perdas na capacidade de concentração e memória. O scroll infinito criou um funcionamento cerebral que fica em busca da próxima recompensa.
Uma das notícias mais famosas dos últimos anos é que em 2024 Oxford definiu “brain rot” (apodrecimento cerebral) como a palavra do ano. Uma deterioração cognitiva – literal, e não simbólica, pois é registrado perda de massa cinzenta – fruto do excesso de contato com a tela e o mundo digital. Essas são discussões importantes, mas superficiais, rasas, a “ponta do iceberg”, uma expressão do problema, e não o(s) problema(s) em si.
O smartphone deixou de ser um instrumento tecnológico que possuímos e o mundo digital se tornou um ambiente onde vivemos, e aí as discussões que a Psicologia pode fazer se tornam mais profundas e significativas. Como dito, o mundo digital impactou todas as esferas e relações humanas, no âmbito afetivo, social, cultural, político, econômico, etc. Simplesmente nada ficou de fora. O mundo online se sobrepõe e reconfigura, também, o mundo offline, criando uma característica de estrutura cognitiva-afetiva que nunca vimos antes na História da Humanidade.
O mundo digital se torna mais um espaço/ambiente onde se constrói, elabora e significa a cultura humana, a vivência online nos humaniza tal qual a experiência offline, ou melhor, as experiências da vida fora do ambiente digital. Nem podemos falar de “vida concreta” e “vida online”, pois a vida digital é também concreta e compõe nossa existência no século XXI.
Os impactos são gigantescos, primeiro o das redes sociais, onde criamos uma “identidade virtual” e foi se estruturando um tipo de performance nunca antes visto, a performance da própria existência. A busca do feed perfeito, o medo de estar perdendo algo (FOMO) ou de ficar sem saber alguma notícia/novidade, perder alguma oportunidade, a comparação injusta da totalidade da nossa vida com as vidas editadas e postadas – dos melhores momentos – das vidas dos outros, os mecanismos mega elaborados de captura da atenção e manipulação para compras – seja de ideias, seja de produtos.
De um jeito meio bizarro, o celular se tornou o primeiro objeto que utilizamos ao acordar, o que passamos maior parte do dia e o último que utilizamos antes de dormir. Vamos ao banheiro com o celular na mão, isso é extremamente sintomático e naturalizado. Ele se tornou uma extensão, quase como um órgão nosso fora do corpo. Como num comportamento coletivo em que “se todo mundo está fazendo, então é normal”, não estamos problematizando este fenômeno e a Psicologia além de precisar tomar esta como uma tarefa urgente, é uma das Ciências que mais tem a contribuir com essa discussão.
Do ponto de vista do trabalho, o mundo digital explodiu a barreira entre vida pessoal e vida profissional, seja você alguém que exerce o trabalho remoto ou não, sem contar a precarização do trabalho a partir da lógica da plataformização – que afeta inclusive o trabalho das psicólogas. O rompimento dessa barreira e a precarização se tornaram os grandes responsáveis pelo alto nível de adoecimento advindo da relação com o trabalho.
Do ponto de vista da saúde mental no âmbito geral os impactos são muito expressivos e não é preciso muito esforço para perceber. Os mais vulneráveis são as crianças e os adolescentes, chamados nativos digitais. Dependência digital, cyberbullying, ansiedade, depressão, violências, exposições indevidas, sexualização precoce e muitos outros problemas atravessam essa dinâmica de relação entre infância/adolescência e as relações mediadas pelo mundo digital.
Para além desta fase da vida, são muitos os fenômenos mediados pelo ambiente virtual, as bolhas sociais, a polarização política, a violência na internet, as dependências, as métricas de valoração social e autoestima a partir de números de seguidores e engajamento em seus perfis, o estabelecimento de determinadas expressões de possibilidades de existência, padrões de vida, felicidade e sucesso, a misoginia, o racismo, a LGBTfobia e tantas outras violências que encontram no mundo digital uma “terra-ainda-sem-lei” onde literalmente se tem liberdade para cometer crimes.
Nossa vivência passa a ser atravessada e determinada por algoritmos que possuem causa própria e funcionamento que desconhecemos; e mais, esses algoritmos são construídos por equipes de empresas que têm dono e interesses próprios alinhados a determinadas visões de mundo e de ser humano que muitas vezes desconhecemos.
Percebe como o buraco é muito mais embaixo do que “busca por dopamina barata, captura da atenção e vício digital?” Não que estes aspectos não sejam importantes, mas o buraco é realmente mais embaixo. A Psicologia precisa refletir sobre isso, fazer a denúncia do que está acontecendo e criar estratégias de enfrentamento que vai desde o posicionamento político de regulamentação desse ambiente virtual até a prevenção e o trabalho com pessoas que já estão enfrentando adoecimentos e sofrimentos graves advindos dessa relação patológica com o mundo digital. “10 dicas sobre uma relação saudável com as redes sociais” pode até ajudar, mas é muito pouco, precisamos de muito mais.
E até aqui falei mais sobre um aspecto do mundo digital, as redes sociais e seus impactos na construção das relações, da identidade, na autopercepção e na construção e manipulação das subjetividades, quando olhamos para o que podem ser os impactos objetivos e subjetivos da Inteligência Artificial dá a impressão de que não é uma nova onda que está chegando, mas um tsunami vindo em nossa direção.
A IA é um tema polêmico, ano passado assisti uma palestra do médico, neurocientista e pesquisador brasileiro Miguel Nicolelis em que ele chama a IA de NINA – Nem Inteligente, Nem Artificial. Ele diz que esse fenômeno tem sido um dos maiores delírios da história da humanidade, um engodo que criou uma bolha financeira gigantesca num grande culto dos gurus da tecnologia do Vale do Silício.
Ele refuta a ideia de ser “Inteligência” porque são apenas mecanismos estatísticos que processam um grande volume de dados, mas não uma rede neural capaz de processar, significar, tomar consciência, compreender causalidade e finalidade, além de ser criativa como a inteligência humana. E também crítica a ideia do “Artificial” pois são ferramentas que se alimentam de dados produzidos pelos humanos e que são treinadas também por seres humanos (normalmente trabalhadores invisibilizados, hiper precarizados e super explorados pelas Big Techs).
E pior, ele aponta o risco de que o uso desenfreado e acrítico das IAs pode, ao invés de potencializar a capacidade cognitiva de um indivíduo, reduzi-la. E como fenômeno de massa, reduzir a capacidade da humanidade de compreender e intervir sobre a natureza e a realidade que temos construído. Nicolelis faz uma defesa do cérebro biológico que, na visão dele, opera com princípios de plasticidade, criatividade e causalidade que nenhum modelo estatístico seria capaz de replicar.
Outro intelectual bastante conhecido, o filósofo Noam Chomsky, diz que a IA nada mais é do que uma grande ferramenta de “plágio sofisticado”, capaz de imitar a forma do raciocínio humano, mas incapaz de compreender a causalidade, a intenção ou a verdade, ou seja, sem qualquer modelo do mundo que se aproxime do conhecimento humano.
No começo tudo parece uma grande brincadeira, fazer imagem, vídeo, um trabalho da escola, apoio para uma pesquisa, e aos poucos vemos empresas já substituindo boa parte de suas equipes, acelerando o processo de criação dos “Agentes de IA” para executar parte do trabalho e, na contramão da Revolução Industrial, em que a tecnologia das máquinas acabou com a força de trabalho manual, esta Revolução Digital está atacando diretamente o trabalho intelectual. Tudo aquilo que tem processo definido, protocolo e operação repetitiva que pode ser automatizada, será facilmente substituído pela IA, dizem. E o campo da saúde mental não está imune a esta avalanche, pelo contrário, já está sob ataque!
Para finalizar este ponto, é preciso trazer a discussão sobre colonialismo digital, uma nova expressão da lógica colonial tão conhecida na história da humanidade, em que os países colonizadores ocupavam territórios, roubavam os bens e matérias-primas que interessavam, impunham sua língua e sua cultura e estabeleciam uma relação de poder e submissão entre o país colonizador e o país colonizado. No colonialismo digital, grandes corporações tecnológicas, sobretudo dos Estados Unidos, detém o poder e o controle sobre infraestruturas, plataformas, algoritmos e fluxos de dados que moldam a vida de bilhões de pessoas no mundo todo.
Ao invés de explorar recursos naturais, o colonialismo digital opera pela extração de dados, pela padronização de comportamentos e pela imposição de modelos culturais, linguísticos e econômicos que marginalizam saberes locais e reforçam desigualdades históricas. A lógica do colonialismo digital se traduz numa espécie de extração de dados sobre os usuários que são utilizados pelas Big Techs para atender seus próprios interesses, criando uma homogeneização cultural ao impor padrões culturais de modo de vida, felicidade e sucesso. Além, claro, do aspecto econômico e da relação de dependência. Uma vez que dependemos da infraestrutura e das plataformas estrangeiras e não temos autonomia ou soberania digital. O dinheiro e as decisões vão, principalmente , para grandes corporações privadas do Vale do Silício.
É um cenário bastante complexo e é preciso atenção, estamos vivenciando em tempo real uma das maiores, mais rápidas e mais impactantes revoluções que a humanidade já viveu em sua história e todas as áreas do conhecimento precisam se implicar para contribuir na compreensão, na regulamentação e na condução desse processo. Como todo processo social e histórico, esta Revolução Digital é feita por pessoas que têm valores e interesses próprios, não podemos nos esquecer disso.
A Psicologia hegemônica muito alinhada a uma Neurociência acrítica biomédica tem focado apenas na parte da dependência digital, no tratamento dos vícios, na compreensão dos impactos no funcionamento cerebral e na produção de sugestões saudáveis da relação entre o sujeito e esta ferramenta digital. Esta Psicologia ainda não percebeu que o que está acontecendo está mexendo com a totalidade da vida humana e impactando toda a estrutura de convivência e construção de subjetividades e relações dos seres humanos do século XXI. E isto não está acontecendo dentro de uma perspectiva democrática, emancipatório e de construção de saúde, mas sim, dentro de uma perspectiva colonizadora de dominação, exploração e padronização que tem adoecido bilhões de pessoas.
É preciso que a Psicologia vá além, traga muitas outras provocações, denúncias, reflexões e, sobretudo, que não caia, mais uma vez na leitura individualizante e biomédica de tratamento individual de pessoas que apresentam determinados sintomas inerentes a esta relação dos seres humanos que se constroem na interface entre a vida dentro e fora do mundo digital – isso enquanto ainda existe vida dentro e fora, há quem diga que em breve será tudo uma coisa só. Há um fenômeno social em curso, precisamos compreender por esta perspectiva e não podemos individualizar, patologizar e culpabilizar as pessoas diante dessas questões.
Assim como com a universalização do acesso à Educação passamos todos a ter uma “subjetividade escolarizada”, com esta Revolução Digital que estamos vivendo, estamos passando a ter uma “subjetividade algoritmizada”, e a Psicologia precisa, urgentemente, se dedicar a pensar e enfrentar este fenômeno que já mostra profundos impactos e graves danos à saúde mental da população. Penso que esta é tarefa não apenas para as entidades e associações da Psicologia ou para as pesquisadoras que estão na Academia fazendo suas iniciações científicas, seus TCCs, seus mestrados e doutorados, mas também para toda psicóloga em qualquer área de atuação psi. Esta é uma tarefa que atravessa cada um e cada uma de nós!
Sabemos que o conhecimento da Psicologia é utilizado neste processo de design de interface e experiência do usuário com objetivos claros de captura de atenção, aumento de tempo de tela e manipulação da tomada de decisão para compras, e precisamos fazer o contraponto a isso. A Psicologia já foi – e ainda é – cúmplice de uma série de problemas sociais na história da humanidade. Já foi cúmplice do higienismo, da eugênia e da lógica manicomial, é cúmplice da lógica patologizante e medicalizante de cuidado em saúde mental, e não podemos nos tornar cúmplices da manipulação de subjetividades, da plataformização da vida e da colonização digital.
Onde se expressam tentativas de controle social, temos a Psicologia envolvida, e precisamos construir uma Psicologia que faça uma leitura crítica e se posicione pública, científica e politicamente diante deste grande fenômeno que estamos vivenciando e que precisamos compreender e enfrentar.
Ainda que para “ver a ilha seja preciso estar fora dela”, sabemos que neste caso não será possível “sair da ilha”, mas precisamos construir algum lugar onde seja possível enxergar melhor o que está sendo a Revolução Digital e seus impactos nas pessoas e nas relações sociais.
Este, talvez, seja um dos maiores desafios da Psicologia do século XXI!
Forte abraço!
Rafa Dutra