Desfiz 41 anos!

Tempus Fugit, o Tempo foge! 

Quem me apresentou esta expressão foi Rubem Alves, a tenho tatuada no mesmo pulso em que uso o relógio desde 2009. E o tempo realmente fugiu…

Também foi Rubem Alves quem me apresentou uma reflexão sobre “desfazer” os anos de vida. Em seu texto “Desfiz 75 anos” ele diz que “esses anos que o aniversariante distraído anuncia como anos que ele fez são, precisamente, os anos que ele desfez, o tempo que já passou, que deixou de ser, os anos que o tempo devorou“. 

Pois bem, para mim 41 já foram desfeitos, quantos ainda vou fazer? Não sei. E começar a subir os degraus da escada dos 40 tem sido um processo interessante. 

Antigamente as pessoas falavam da “crise da meia idade“, hoje em dia falam que “os 40 são os novos 30“, e percebo que para mim tem sido um pouco crise, um pouco novos trinta e um tanto de outros atravessamentos também. 

Culturalmente temos essas coisas com os números redondos: os 30, os 40, os 50, os 60 e assim por diante… pura bobagem, tive grandes transformações em minha vida nos anos quebrados, mas como é cultural, tem muita força sobre nós! 

Mas a grande questão é que, se tudo der certo, o tempo vai passando, a gente vai envelhecendo, o corpo vai mudando e a consciência e a percepção sobre a vida também. E a gente vai se virando para lidar com isso tudo. 

É um processo intenso e sútil ao mesmo tempo. A vida dá umas pancadas e uns afagos. A gente se surpreende e fica feliz por ter vivido e estar vivendo o que sempre sonhou (ou os “sonhos não sonhados” que também realizamos) e, ao mesmo tempo, se frustra, se culpa e se cobra pelas tantas coisas que ficaram pelo caminho. 

E muitas coisas ficaram pelo caminho! Lugares, pessoas, sonhos, objetivos, gostos, identificações, inspirações e tantas versões minhas que carrego em minha biografia mas que não me identifico mais. Gosto disso, me faz pensar que estou sendo coerente com aquilo que entendo como uma vida plena: em movimento. Mas não nego que este caminho não tem sido nada fácil. 

Quando paro e penso, realmente muita coisa já ficou para trás. Mas como diz Rubem Alves, estes são os anos desfeitos, essas são as vidas já vividas. Tento fazer este passado pesar menos e foco nos anos por fazer e nas vidas por viver. Abro mais espaço para esta biografia-do-futuro que carrego como potências e desejos em mim.

Me coloco a pensar na minha vida e fico feliz, pois dei umas vaciladas e fiz umas escolhas bem equivocadas, mas também mandei bem e fiz muita coisa bacana até aqui.  Do jeito que deu, fui vivendo. Poucas vezes me omiti ou recuei diante da vida. E é bem bom chegar aos 41 com poucos arrependimentos. 

Neste mundo de tanto julgamento, cancelamento, intolerância, (fake) performance e tanta gente “cagando regra” de como a gente deve viver nossa vida, é preciso tomar cuidado para não nos tornarmos nem a vítima e nem o algoz de nós mesmos.

Humanos, demasiadamente humanos. Em nossas potências, em nossas fragilidades, em nossos medos, em nossos desejos, em nossos acertos, em nossos erros, enfim, em todas essas tantas contradições que nos constróem como somos.

Desfaço 41 anos saudando e agradecendo a esses quase 15.000 dias vividos até aqui e celebrando este 42° ano de vida que está a chegar. Este sim, o ano que vou fazer agora! Um ano de lidar, para o bem e para o mal, com as consequências das escolhas que fiz até aqui e um ano com muitas outras possibilidades em aberto para as novas escolhas também. 

E a vida segue neste balaio: eu, minha história, meu projeto de futuro e todas as minhas contradições tentando encontrar o ritmo e o equilíbrio para dançar em cima dessa corda bamba maluca, deliciosa, difícil e misteriosa que é a vida.

Como diz Mia Couto, “dentro de mim, não sou sozinho. Sou muitos. E esses todos disputam minha única vida”. Já fui muitos, sou muitos e ainda serei tantos outros…

Apesar do cansaço, das infelicidades, das decepções, das saudades, das dificuldades e das marcas que a vida vai deixando em quem carrega nas costas quatro décadas de história, meu maior presente de aniversário é seguir acreditando que, apesar de tudo, a vida é cheia de boniteza!

Muitos anos já foram desfeitos e vividos, e espero que muitos ainda não!
Então bora fazer bem feito estes 42!

Que eu encontre os caminhos abertos!
Laroyê!

Forte abraço! 
Rafa Dutra

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