A Psicologia e as redes sociais

No Brasil começamos com o Orkut, e ali era tudo bem diferente, hoje em dia são muitas e cada hora surge uma nova, mas as redes que as psicólogas mais utilizam para se divulgarem é o Instagram e o TikTok e isso foi, pouco a pouco, se tornando uma grande questão.

Se tornou comum, já na faculdade, as estudantes criarem seus perfis e já começarem a tentar construir relacionamento com seus seguidores a fim de construir autoridade e projetar que, no futuro, aquele espaço será um espaço para se legitimar enquanto profissional e conseguir alguma oportunidade de trabalho, normalmente atrelado a ideia de estar na Clínica e conseguir pacientes. 

É possível conseguir pacientes pelas redes sociais? Com certeza! Mas em uma estatística empírica a partir da conversa e convivência com centenas de psicólogas, eu ousaria dizer que 90% dos perfis de psicólogas não conseguem fazer captação de novos pacientes. 

A imensa maioria desses perfis são construídos de maneira muito amadora, além da padronização que os fazem parecer quase todos iguais, com os meus layouts, os mesmos tipos de conteúdo, etc. Há uma homogeneização em que autenticidade, identidade e autoridade acabam se perdendo. 

Grandes empresas – ou grandes influenciadores – tem equipes com dezenas de pessoas e investem centenas de milhares de reais em impulsionamento (patrocínio de postagens) para atingir seus resultados, é triste mas existe até uma inocência e uma ingenuidade das psicólogas em achar que conseguiriam o mesmo resultado fazendo tudo sozinha, sem ser especialista e nem ter conhecimentos gerais básicos em marketing digital, investindo, no máximo, algumas centenas de reais em impulsionamento de postagem. 

É um pouco ilusório e, também, um pouco “canto de sereia” que te atrai para o fundo do mar e de lá você não volta. Mas este é apenas o ponto inicial da discussão, é preciso também pontuar o impacto que essa superexposição que as redes sociais exigem dos seus usuários vai ter na relação entre a psicóloga e seus pacientes. 

Tradicionalmente o trabalho da Psicologia sempre contou com a falta de conhecimento do paciente sobre a vida da profissional que o atende como parte, inclusive, da construção e da potência dessa relação. Com as redes sociais essa barreira se perde. Quanto mais exposição da própria vida, mais o algoritmo entrega. E aí as profissionais se percebem obrigadas a tentar construir uma lógica de influencer e tendo que se tornarem “blogueirinhas”, planejar posts criativos para o feed, compartilhar sua rotina na esperança de conseguir construir autoridade e, principalmente, conseguir pacientes.

Neste processo, cometem o grande equívoco (na minha opinião) de tentarem se apresentar como uma autoridade no tema do cuidado em saúde mental e, sobretudo, um exemplo de alguém com sucesso profissional e boa saúde mental, e vão se expondo, editando os recortes de sua vida que reforçam essa imagem, pois é ela quem engaja. Compartilham rotinas de saúde, de atividade física, de alimentação, rotina social, expõem filhos, família, relacionamentos, hobbies, atividades profissionais, gostos culturais, leituras, etc, e vão, post a post, tentando construir uma narrativa de si mesma que, ao meu ver, vai para dentro da sessão. Hoje em dia é comum a psicóloga receber um paciente novo porque ele se identificou com ela (e talvez deseje estar com ela ou com alguém como ela, ou até ser alguém como ela). A psicóloga passa a ser um ideal a ser seguido/conquistado 

Consegue enxergar os inúmeros problemas nisso? E aí um trabalho a mais passa a ser desconstruir todas essas expectativas e projeções, o que nem sempre é colocado em pauta ou sequer percebido, de tão naturalizado que é o papel que essa “persona digital” ocupa em nossas vidas. A lógica da rede social é antagônica à lógica do que é esperado de uma psicóloga, e eu percebo esta discussão e esse embate, inclusive, entre as diferentes gerações de psicólogas. 

É inegável que a rede social pode ser um espaço potente de divulgação, marketing pessoal, captação de pacientes e até empreendedorismo digital e que algumas psicólogas estão tendo sucesso nessa empreitada, algumas poucas até fazendo muito dinheiro com isso. Mas sabemos que são exceções e exceções confirmam a regra. E infelizmente a regra tem sido muito trabalho, muita exposição, pouco resultado e muita frustração. E é justamente disso que os gurus do marketing se aproveitam para vender seus cursos e, junto com eles, vender a promessa de sucesso.

Outro ponto fundamental é a produção de conteúdo em si, fazer um post é prestar um serviço gratuito de psicoeducação e isso exige responsabilidade e cuidados teóricos e éticos importantes. Infelizmente, a grande massa dos conteúdos produzidos por psicólogas nas redes sociais são conteúdos ancorados em uma perspectiva patologizantes de saúde mental, se fala sobre patologias, sintomas, dicas para identificar diagnósticos, dicas de como lidar com determinadas situações, tipificação de pessoas e se reforça, indiscriminadamente, a lógica neoliberal do sujeito empreendedor-de-si que tanto tem produzido adoecimento. 

Poucos são os perfis que fazem, de fato, uma discussão crítica sobre saúde mental, primeiro porque este discurso não compõe as práticas hegemônicas da Psicologia, segundo porque não engaja. 

As redes sociais criaram um trabalho a mais para as psicólogas e uma necessidade de exposição que muitas não querem fazer. A lógica de “ser uma profissional influencer” além de trazer questões para a prática profissional, também é produtora de adoecimento e sofrimento, assim como muitas vezes fazemos escuta, acolhimento e construímos estratégias de enfrentamento para o sofrimento que nossos pacientes vivem expostos às redes, estamos lá nós, nos expondo e tentando capturar atenção e engajamento, é um nó e uma contradição que compõe o construir-se psicóloga nos dias de hoje e que precisamos problematizar. 

O Código de Ética é explícito sobre a questão de publicização do nosso trabalho, mas como ele é de 2005, muitas resoluções e orientações foram sendo construídas pelo Conselho Federal e por diversos Conselhos Regionais para estabelecer limites e possibilidades sobre o como deve ser um existir ético das profissionais da Psicologia nas redes sociais. 

Os desafios são tantos e o problema se tornou tão grande que foi preciso, inclusive, fazer orientações para as estudantes de Psicologia, algo inédito, uma vez que o Conselho regula apenas as profissionais. 

A lógica das redes sociais tornou o perfil “.psi” quase compulsório e, infelizmente, poucas são as discussões críticas e profundas que vemos sobre esse tema, normalmente as discussões são sobre técnicas e estratégias de como utilizar esta ferramenta para conseguir construir autoridade, ter engajamento, conseguir pacientes e ganhar dinheiro. É preciso romper com o comportamento de manada, pensar sobre o que são as redes, o que significa estar nelas falando enquanto psicólogas e, se decidir estar nelas, entender o porquê, o como e o para quê quer estar. 

Já são uns dez anos vivendo este contexto, neste tempo já vimos de tudo um pouco, felizmente tem bastante coisa legal também, mas ainda assim, infelizmente, o discurso e o posicionamento das psicólogas nas redes tem sido o de reforçar muito daquilo que produz o adoecimento aos usuários das redes.

Forte abraço!
Rafa Dutra

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