A Psicologia e o pacto neoliberal

O Neoliberalismo não é apenas uma construção política-econômica dos anos 70-80 que defende o Estado Mínimo, as privatizações, o livre mercado, a meritocracia, etc. Ele se tornou toda uma construção cultural que define uma maneira específica de experiênciar a existência humana.

Racionalidade, eficiência, (hiper)produtividade, performance, metas, métricas, individualismo, competição, influência, propósito, disciplina, constância, liberdade financeira, mindset de valor, power skills, network, foco, força, fé e etc. 

Tudo junto e misturado neste grande caldo que constitui a cultura neoliberal, temperado pela benção da prosperidade e que vem construindo subjetividades, identidades, percepções de mundo, dos outros e de si, além de criar significados e pautar as relações. 

Vivemos uma atualização da sociedade do espetáculo, entorpecidos pela sociedade da informação e exaustos pela sociedade da performance. Estamos doentes!

É só olhar e reparar, estamos cansados num nível extremo, medicados, desesperançados, nos forçando a seguir em frente, com a cabeça baixa e o celular na mão enquanto o céu cai sobre nós. O neoliberalismo produziu múltiplas crises e nos trouxe a um abismo difícil de nomear. 

Mas nesta cultura neoliberal a lógica é sempre individualista e individualizante. Se deu certo, mérito seu, se deu errado, culpa sua, se não está dando conta, dê seus pulos. Se vira, improve yourself, busque a sua melhor versão, em suma, se esforce mais. 

Nesta lógica, a saída também é sempre individual, e entre as possibilidades apresentadas, no centro do combo do autocuidado e nesta busca por um eu-ideal-de-mim que atualmente ganhou o nome de “sujeito-empreendedor-de-si”, o discurso do “faça terapia” vem ganhando muita força, sobretudo de 2020 para cá.  

A terapia deixou de ser algo do qual se tinha preconceito para se tornar quase um fetiche. Spoiler de um psicólogo clínico com quase 20 anos de experiência: a terapia não vai adiantar! 

Veja bem, ela pode ajudar em muitos aspectos e pode ser muito importante, potente e transformadora; mas diante deste modo de viver no século XXI em que estamos sendo massacrados pelas condições objetivas e materiais da vida e pelas condições subjetivas de compreender e significar este grande mistério que é nossa existência, a terapia tem limites muito claros. 

A terapia – quando crítica – poderá ajudar na tomada de consciência, mas será incapaz de promover a superação dos desafios que se apresentam, pois estes desafios e estes sofrimentos não são individuais. São coletivos, sociais e estruturais. Logo, a saída também não será individual, mas coletiva e comunitária, quiçá, revolucionária. 

Diante do sofrimento ético-político é preciso pensar a construção e a promoção de uma perspectiva de saúde ético-política também. A ideia biomédica de saúde não dá conta do caos que estamos vivendo. 

Neste cenário difícil a Psicologia tem tido um papel ambíguo. Um lado, não hegemônico, faz a crítica, a denúncia e busca construir alternativas. Já o outro lado se identifica e reforça esta cultura neoliberal, sustentando teorias e práticas individualizantes, culpabilizantes, patologizantes e medicalizantes. E essa Psicologia neoliberal vem, infelizmente, crescendo e caminhando a passos largos.

Quando Psicologia e Neoliberalismo dão as mãos, o que acontece é que discursos psicológicos, mais uma vez, cumprem um papel  de cumplicidade ideológica, sob a marca da cientificidade e com a autoridade da ciência do comportamento, reforçam a estrutura dominante que produz o adoecimento em massa que estamos vivenciando. 

Essa maneira de perceber e fazer a Psicologia recai, inclusive, no posicionamento profissional das psicólogas que hoje em dia se percebem empreendedoras, “CEOs de consultório” e constróem suas trajetórias seguindo a cartilha neoliberal, muitas vezes, sem nem se dar conta disso. 

Naturalizamos maneiras de nos expressar profissionalmente, sobretudo com o atravessamento das redes sociais e a necessidade de performar sucesso e autoridade, mas também naturalizamos o impacto que este modo de compreender e viver a vida tem tido em cada pessoa que senta diante de nós. 

É preciso compreender os impactos objetivos e subjetivos que a cultura e as condições de vida concreta dentro do neoliberalismo produz, inclusive, na nossa própria relação e posicionamento diante do nosso trabalho.

É preciso denunciar este pacto neoliberal da Psicologia! Caso contrário, ao invés de promover saúde mental, vamos seguir adoecendo e reforçando práticas, valores e crenças que produzem e reproduzem este grande fenômeno de adoecimento, exaustão e solidão. 

Não há terapia que dê conta!

Forte Abraço!
Rafa Dutra

A Psicologia e as lutas sociais

“Qual é a realidade que você quer contribuir para mudar?”

Esta era a provocação que Silvia Lane fazia aos seus orientandos, e esta foi a provocação que quis deixar às participantes do I Encontro de Psicologia e Compromisso Social da USCS.

Organizo eventos de Psicologia há mais de 20 anos, desde que era estudante, e participar da organização da “I Semana de Psicologia e Compromisso Social da USCS: A Psicologia e as lutas sociais” foi um desafio muito especial. Um marco histórico e um posicionamento político importante em nosso curso.

Promover e participar destes espaços de encontro me faz muito sentido e é uma das minhas maneiras de contribuir com a transformação da formação em Psicologia, tarefa na qual me dedico desde que ainda era um estudante e que me acompanha em diversas frentes de trabalho e militância.

A história da Psicologia brasileira não nos orgulha. Enquanto ciência e profissão estivemos muito alinhadas ideologicamente na produção do ajustamento social, na reprodução das violências da exclusão e defendendo, explícita ou implicitamente, as pautas e projetos de sociedade de uma classe dominante.

Ainda hoje está. Apesar dos muitos avanços, das denúncias, das críticas, da ampliação de possibilidades de atuação e das suas construções teóricas, a Psicologia tradicional hegemônica ainda se coloca como um conhecimento e uma prática alinhados à visão de mundo e aos valores neoliberais, com teorias e práticas individualizantes e patologizantes.

O encontro entre a Psicologia e os movimentos sociais é um encontro urgente e necessário. Por um lado a Psicologia tem contribuído tanto para a compreensão da constituição do fenômeno das violências e seus impactos subjetivos quanto para o manejo de cuidado e enfrentamento das mais diferentes opressões e injustiças que afetam as pessoas e constituem uma sociedade estruturalmente desigual.

Por outro lado, os movimentos sociais convocam a Psicologia a se olhar no espelho, repensar e avançar em suas pesquisas e em suas práticas. A Psicologia Social e os movimentos sociais têm papel fundamental na denúncia, na crítica e na construção de um posicionamento ético-político alinhado ao combate das violências e injustiças e à construção de uma sociedade mais justa, democrática e igualitária.

O projeto do compromisso social da Psicologia, enquanto um projeto profissional posicionado nesta direção, é uma das mais fortes expressões do diálogo e do encontro da Psicologia com as lutas sociais no Brasil e na América Latina.

Luane Santos, psicóloga e professora da UFBA, pesquisou sobre o projeto do compromisso social da Psicologia em seu doutorado (que fez na PUC SP com orientação da Ana Bock em 2017) e em sua pesquisa identificou 9 grandes expressões desse projeto:

  • Defesa dos Direitos Humanos e Sociais
  • Enfrentamento das temáticas ligadas à dominação em suas diversas expressões
  • Ampliação e fortalecimento das instituições democráticas
  • Crítica ao pensamento colonizado
  • Defesa e Organização da Psicologia Latinoamericana
  • Reformulação de saberes e práticas na Psicologia
  • Centralidade no exercício crítico
  • Inserção e qualificação do trabalho das psicólogas nas políticas públicas
  • Ênfase no trabalho coletivo e interdisciplinar

Essas são as diferentes expressões de um pensar e fazer a Psicologia com compromisso social, com um compromisso com a transformação social na direção da produção de uma vida digna para cada pessoa.

Há uma provocação popular de que “Psicologia sem consciência de classe é coaching“, e de fato, Psicologia sem consciência crítica e compromisso social é tecnicismo de ajustamento e controle social, independente da “nova roupagem” com a qual tentam disfarçar isso, sobretudo pela falácia da neutralidade científica.

O projeto do compromisso social e o posicionamento ético-político alinhado às lutas sociais não pertencem a uma determinada perspectiva teórica ou a um campo de atuação específico, este é um projeto plural, construído por estudantes, professoras, pesquisadoras e psicólogas que fazem a Psicologia todos os dias e em todos os lugares onde ela está.

É preciso que a Psicologia saiba responder qual realidade ela quer contribuir para mudar!

Forte abraço!
Rafa Dutra

Psicologia Cristã não existe!

De uns tempos para cá começamos a ver algumas profissionais se apresentando como “psicóloga cristã” e isso vem se configurando como um problema, não só pelo que já é, mas também pelo que isso poderá chegar a ser.

Toda psicóloga tem o direito de ser cristã. E isso é fato consumado. A psicóloga, em sua vida privada, pode professar a fé que bem entender. Pode ser cristã, evangélica, católica, kardecista, umbandista, budista, hinduísta, agnóstica, ateia, etc.

Mas leia novamente: em-sua-vida-privada!

Ou seja, na vivência da sua vida pessoal. Orientar suas escolhas, seus valores, sua construção de sentido e significado na vida a partir de uma determinada doutrina religiosa é um direito das psicólogas e de qualquer pessoa numa sociedade onde exista, de fato, liberdade religiosa.

Agora, se apresentar como “psicóloga cristã” ou dizer que ela pratica uma “Psicologia Cristã” é um problema grave e explico o porquê:

Primeiro, pelo básico: a Psicologia é laica.
Segundo, não existe uma Psicologia Cristã.
Terceiro, está posto no Código de Ética Profissional da Psicóloga
Quarto, o Conselho Federal de Psicologia fez uma Resolução específica sobre este tema (07/2023) em que deixa explícito: “é vedado à psicóloga utilizar o título de psicóloga ou psicólogo associado a vertentes religiosas”

Essa Resolução 07/2023 está em julgamento no STF porque estão tentando derrubá-la alegando que ela é inconstitucional, por ferir a liberdade religiosa. O que não é verdade e esperamos, pelo bem da Psicologia e da sociedade, que a Resolução seja mantida.

Entendo o desejo de algumas pacientes por serem atendidas por uma psicóloga que seja cristã, mas embora pareça apenas um jogo de palavras, é importante entender que uma psicóloga que é cristã é diferente de uma “psicóloga cristã“. E é preciso problematizar isso!

Já vi essa discussão em mais de um grupo de whatsapp de psis, sempre gera muito debate e sei que o tema é polêmico, no entanto, defendo a posição que a paciente pode desejar ser atendida por quem ela quiser, é um direito dela. Mas nós, enquanto profissionais, precisamos fazer a escuta sobre este desejo e nos posicionar éticamente diante dele.

Entendo que assim como uma pessoa LGBTQIA+ muitas vezes deseja ser atendida por uma profissional LGBTQIA+, uma pessoa cristã pode desejar ser atendida por uma psi que seja cristã. O desejo é legítimo.

Mas estamos falando do desejo da paciente, que pode se expressar livremente, o que é completamente diferente de uma profissional em que a apresentação/divulgação/marketing é ser uma “psi cristã“, um título, uma especialidade, um campo da produção de saber ou de prática profissional que não existe.

Do lugar de psicóloga, nos cabe a escuta e a compreensão: quando uma pessoa LGBTQIA+ deseja ser atendida por uma profissional LGBTQIA+, ela deseja o que?

Provavelmente se sentir mais segura de que não sofrerá preconceito e não será alvo de LGBTfobia e não será revitimizada. Talvez porque busca ter um sentimento de identificação e segurança ao ser atendida por alguém da mesma comunidade, alguém que a respeite e que conhece os atravessamentos, as dores, as dificuldades, as violências, os medos, etc…

Essas são hipóteses que só a própria paciente poderia validar, e talvez compreender este desejo seja uma das primeiras coisas a se fazer num processo terapêutico que começa com esta encomenda. Está aí um bom ponto de partida.

Fazer esta escuta e compreender este desejo é importante, e penso que o mesmo se aplica a paciente cristã, agora, desta compreensão e escuta para se divulgar como uma “psicóloga cristã” ou querer defender uma “Psicologia Cristã” é um salto gigantesco, para mim, um salto em direção ao abismo.

Como o cristianismo é uma doutrina religiosa que compõe a ideologia dominante, muitas vezes se naturaliza e se relativiza o problema de quem se identifica e se apresenta desse lugar, mas cabe aqui um exercício.

Imagina uma bio do instagram assim:

Psicóloga Umbandista
Filha de Oxum
“Te ajudo a abrir os caminhos da sua vida”
Agende sua sessão!

Causa certo espanto, né?

Pois bem, também não existe “psicóloga umbandista“, e divulgar-se assim seria igualmente uma falta ética, uma falta de bom senso e também uma falta de noção. Falta muita coisa, na verdade. Curiosamente, nunca vi um perfil de “psicóloga umbandista“, mas já vi vários (alguns com +100k seguidores) de “psicóloga cristã“!

Se por um lado, pode faltar a compreensão e orientação corretas e grandes equívocos no entendimento de como deve ser o trabalho e a divulgação de uma psicóloga. Por outro, é inegável que existe um movimento de aproveitar um “nicho de mercado”.

É fato também que a má qualidade no atendimento de psis que já atuaram de maneira preconceituosa e violenta frente a demandas advindas de pessoas que vivenciam sua existência na cultura cristã, sobretudo evangélica, contribui para este fenômeno.

A dimensão objetiva e subjetiva da experiência espiritual/religiosa pode ser um dos aspectos a serem trabalhados em psicoterapia ou em qualquer outro serviço em Psicologia, bem como pode apresentar, em algumas pessoas, aspectos estruturais da construção da identidade e da constituição de sua configuração subjetiva, mas não é preciso ser uma “psicóloga cristã” para criar um espaço de acolhimento, escuta crítica e manejo dessa questão.

Para além da polêmica, é preciso falar sobre isso. Elucidar a sociedade em geral, problematizar a formação em Psicologia e denunciar psicólogas que utilizam da “boa fé” das pessoas para vender algo que não existe, não é regulamentado, não é legitimado e é vedado pelos órgãos competentes.

É triste ver perfis profissionais de psicólogas com dezenas de milhares de seguidores que ficam evocando a bíblia, “a palavra”, os salmos, etc. Este é, na verdade, um desserviço à sociedade, um desserviço à Psicologia e um desserviço às pessoas, inclusive às cristãs.

Forte abraço!
Rafa Dutra