Psicologia Cristã não existe!

De uns tempos para cá começamos a ver algumas profissionais se apresentando como “psicóloga cristã” e isso vem se configurando como um problema, não só pelo que já é, mas também pelo que isso poderá chegar a ser.

Toda psicóloga tem o direito de ser cristã. E isso é fato consumado. A psicóloga, em sua vida privada, pode professar a fé que bem entender. Pode ser cristã, evangélica, católica, kardecista, umbandista, budista, hinduísta, agnóstica, ateia, etc.

Mas leia novamente: em-sua-vida-privada!

Ou seja, na vivência da sua vida pessoal. Orientar suas escolhas, seus valores, sua construção de sentido e significado na vida a partir de uma determinada doutrina religiosa é um direito das psicólogas e de qualquer pessoa numa sociedade onde exista, de fato, liberdade religiosa.

Agora, se apresentar como “psicóloga cristã” ou dizer que ela pratica uma “Psicologia Cristã” é um problema grave e explico o porquê:

Primeiro, pelo básico: a Psicologia é laica.
Segundo, não existe uma Psicologia Cristã.
Terceiro, está posto no Código de Ética Profissional da Psicóloga
Quarto, o Conselho Federal de Psicologia fez uma Resolução específica sobre este tema (07/2023) em que deixa explícito: “é vedado à psicóloga utilizar o título de psicóloga ou psicólogo associado a vertentes religiosas”

Essa Resolução 07/2023 está em julgamento no STF porque estão tentando derrubá-la alegando que ela é inconstitucional, por ferir a liberdade religiosa. O que não é verdade e esperamos, pelo bem da Psicologia e da sociedade, que a Resolução seja mantida.

Entendo o desejo de algumas pacientes por serem atendidas por uma psicóloga que seja cristã, mas embora pareça apenas um jogo de palavras, é importante entender que uma psicóloga que é cristã é diferente de uma “psicóloga cristã“. E é preciso problematizar isso!

Já vi essa discussão em mais de um grupo de whatsapp de psis, sempre gera muito debate e sei que o tema é polêmico, no entanto, defendo a posição que a paciente pode desejar ser atendida por quem ela quiser, é um direito dela. Mas nós, enquanto profissionais, precisamos fazer a escuta sobre este desejo e nos posicionar éticamente diante dele.

Entendo que assim como uma pessoa LGBTQIA+ muitas vezes deseja ser atendida por uma profissional LGBTQIA+, uma pessoa cristã pode desejar ser atendida por uma psi que seja cristã. O desejo é legítimo.

Mas estamos falando do desejo da paciente, que pode se expressar livremente, o que é completamente diferente de uma profissional em que a apresentação/divulgação/marketing é ser uma “psi cristã“, um título, uma especialidade, um campo da produção de saber ou de prática profissional que não existe.

Do lugar de psicóloga, nos cabe a escuta e a compreensão: quando uma pessoa LGBTQIA+ deseja ser atendida por uma profissional LGBTQIA+, ela deseja o que?

Provavelmente se sentir mais segura de que não sofrerá preconceito e não será alvo de LGBTfobia e não será revitimizada. Talvez porque busca ter um sentimento de identificação e segurança ao ser atendida por alguém da mesma comunidade, alguém que a respeite e que conhece os atravessamentos, as dores, as dificuldades, as violências, os medos, etc…

Essas são hipóteses que só a própria paciente poderia validar, e talvez compreender este desejo seja uma das primeiras coisas a se fazer num processo terapêutico que começa com esta encomenda. Está aí um bom ponto de partida.

Fazer esta escuta e compreender este desejo é importante, e penso que o mesmo se aplica a paciente cristã, agora, desta compreensão e escuta para se divulgar como uma “psicóloga cristã” ou querer defender uma “Psicologia Cristã” é um salto gigantesco, para mim, um salto em direção ao abismo.

Como o cristianismo é uma doutrina religiosa que compõe a ideologia dominante, muitas vezes se naturaliza e se relativiza o problema de quem se identifica e se apresenta desse lugar, mas cabe aqui um exercício.

Imagina uma bio do instagram assim:

Psicóloga Umbandista
Filha de Oxum
“Te ajudo a abrir os caminhos da sua vida”
Agende sua sessão!

Causa certo espanto, né?

Pois bem, também não existe “psicóloga umbandista“, e divulgar-se assim seria igualmente uma falta ética, uma falta de bom senso e também uma falta de noção. Falta muita coisa, na verdade. Curiosamente, nunca vi um perfil de “psicóloga umbandista“, mas já vi vários (alguns com +100k seguidores) de “psicóloga cristã“!

Se por um lado, pode faltar a compreensão e orientação corretas e grandes equívocos no entendimento de como deve ser o trabalho e a divulgação de uma psicóloga. Por outro, é inegável que existe um movimento de aproveitar um “nicho de mercado”.

É fato também que a má qualidade no atendimento de psis que já atuaram de maneira preconceituosa e violenta frente a demandas advindas de pessoas que vivenciam sua existência na cultura cristã, sobretudo evangélica, contribui para este fenômeno.

A dimensão objetiva e subjetiva da experiência espiritual/religiosa pode ser um dos aspectos a serem trabalhados em psicoterapia ou em qualquer outro serviço em Psicologia, bem como pode apresentar, em algumas pessoas, aspectos estruturais da construção da identidade e da constituição de sua configuração subjetiva, mas não é preciso ser uma “psicóloga cristã” para criar um espaço de acolhimento, escuta crítica e manejo dessa questão.

Para além da polêmica, é preciso falar sobre isso. Elucidar a sociedade em geral, problematizar a formação em Psicologia e denunciar psicólogas que utilizam da “boa fé” das pessoas para vender algo que não existe, não é regulamentado, não é legitimado e é vedado pelos órgãos competentes.

É triste ver perfis profissionais de psicólogas com dezenas de milhares de seguidores que ficam evocando a bíblia, “a palavra”, os salmos, etc. Este é, na verdade, um desserviço à sociedade, um desserviço à Psicologia e um desserviço às pessoas, inclusive às cristãs.

Forte abraço!
Rafa Dutra

8 de março: uma escuta

Sou homem. 
É importante que esta seja a primeira coisa a ser dita neste texto, pois o que compartilho aqui não vem de uma vivência em primeira pessoa, mas de uma “escuta“.

Sou psicólogo, e nos atendimentos muitas vezes utilizo uma expressão em que digo “conseguir ter noção, mas não conseguir ter a dimensão” daquilo que estou vendo ou ouvindo.

Compreendo, analiso, ajudo a elaborar, mas estou do lado de fora, sou estrangeiro dessas vivências todas e, portanto, tudo o que disser, pensar ou sentir, sempre terá uma lacuna. 

Levando em consideração meu lugar e a existência dessas lacunas, gostaria de compartilhar algumas reflexões. 

Há muitos anos me considero feminista, com todas as contradições e questões que isso promove. E há muitos anos acompanho os movimentos do 8M (o oito de março), o Dia Internacional da Mulher.

Sempre afetado, aprendendo, refletindo e tentando compor a luta, ecoar a voz, silenciar, potencializar discursos e ações, desconstruir e reconstruir referências, ideias, sentimentos, desejos e percepções que me constituem enquanto homem e pessoa. 

Mas o 8M de 2026 me atravessou diferente!

As pautas históricas estavam lá: fim da violência contra mulher, combate ao machismo, igualdade de direitos, legalização do aborto, etc. Algumas pautas contemporâneas foram agregadas, como o fim da escala 6×1, a criminalização da misoginia e a denúncia dos efeitos nocivos do discurso redpill. No entanto, havia uma questão que vinha de outro lugar:

“DEIXEM AS MULHERES VIVAS!”

Me parecia uma mistura de raiva, ódio, medo e desespero que se expressava em vários cartazes, conversas, palavras de ordem e conteúdos que circularam nas redes sociais. 

Os números das violências contra as mulheres são bizarros de assustadores e revoltantes, mas a questão do feminicídio me pareceu estar ocupando um outro lugar este ano.

Nos últimos meses as tantas notícias trágicas de mulheres assassinadas produziu um grande impacto, até mesmo os homens mais conservadores expressaram seu espanto. No entanto, foi se configurando uma dimensão subjetiva que me parece ter colocado as mulheres em outro lugar com muita intensidade: o medo de morrer, de ser a próxima vítima, de se tornar a próxima notícia. 

Como se não bastasse todos os enfrentamentos que a condição de gênero expõe e violenta as mulheres cotidianamente em nossa cultura, o viver sob ameaça constante, quando não mata, adoece. 

Neste contexto, a raiva e o ódio se configuram não apenas como expressão de consciência e saúde, mas como necessidade de sobrevivência: 

“PAREM DE NOS MATAR!”

Não há nada mais objetivo e concreto do que o grito pela vida. Estamos falando de um dos direitos mais básicos do nosso pacto civilizatório que também tem estado sob constante ameaça: O DIREITO À VIDA! 

Artigo 3° da Declaração Universal dos Direitos Humanos: “Todo ser humano tem direito à vida, à liberdade e à segurança pessoal

Vida, que para mim, é uma das grandes marcas das mulheres, as únicas que carregam em si a potência de gerar uma nova vida. E àquelas nas quais, em nossa cultura, foi legado o trabalho de cuidar e zelar pela vida. E são justamente elas que vivem, cotidianamente, acompanhadas pelo medo da morte! 

Não apenas as tantas mortes simbólicas, mas a morte concreta, onde as flores vão em cima do caixão.

Neste 8M de 2026, fui atravessado por este “medo-desespero-raiva-ódio” que tem composto o cotidiano das mulheres em nosso país, para além de todas as questões legitimadas históricamente de luta das mulheres por igualdade, justiça e liberdade: o medo de morrer!

Estamos falando de uma condição subjetiva de guerra. Sofrimento, medo, viver sob ameaça, ser impactada constantemente pelas velhas notícias das novas vítimas. 

Diante de tudo isso, é preciso fazer esta escuta, é preciso fazer esta denúncia, é preciso problematizar este fenômeno junto aos homens e é preciso compor um pacto pela vida.

De fato, precisamos construir um outro mundo, este nosso modelo de sociedade mata! 

Forte abraço!
Rafa Dutra 

Criar um blog em 2026 faz sentido?

CRIAR UM BLOG EM 2026 FAZ SENTIDO?

Confesso que ainda não sei ao certo, conteúdos em um perfil na rede social, publicações com 144 caracteres, vídeos de até 90 segundos e cortes de entrevistas de mentira talvez engajariam mais. Mas a proposta aqui é outra. 

Eu vi os blogs nascerem, cheguei a ter mais de um em diferentes momentos da vida, mas também os vi desaparecerem. Quem é que tem tempo e paciência de ler um texto com mais de dois parágrafos hoje em dia? 

No entanto, me faz sentido criar um espaço onde eu possa desenvolver algumas ideias com mais tempo e publicar alguns textos. Eu sempre gostei de escrever. 

Não me esqueço de uma vez, na reunião de planejamento da Subsede Grande ABC do CRP SP no início de 2020, a mediadora propôs uma apresentação diferente: se você não fosse psicólogo, o que seria? 

No meu caso, seria professor, o que já sou. Então, me coloquei a pensar: se eu não fosse psicólogo nem professor, o que eu seria? 

Jornalista!

Foi a minha resposta rápida sem muito pensar a respeito. Pensando depois, pude entender um pouco mais. Como diz Silvio Bock, ao pensar numa profissão como possibilidade, evocamos o que está posto socialmente, o que sabemos a respeito dela e as pessoas que conhecemos naquela profissão, e o primeiro nome que me vem é a Eliane Brum. 

Conheci ela por acaso, vi seu livro exposto numa livraria e comprei porque o título me chamou atenção e a proposta me despertou curiosidade: “A vida que ninguém vê” (Arquipélago Editorial). 

Desde então acompanhei sua coluna na Época, no El País, li seus livros (alguns comprei e ainda não li, quem nunca?), e penso que seria muito legal ter uma coluna em algum jornal/portal ou qualquer coisa do tipo. Mas nunca investi nisso. 

Hoje em dia, a internet permite que eu mesmo crie a minha coluna, então não preciso esperar o convite de algum lugar para publicar meus textos, posso criar um blog e publicá-los a quem interessar ler. Lógico que o alcance é muito menor, mas isso não é uma questão agora.  

A minha primeira questão foi a dúvida se conseguiria manter uma regularidade de publicações com a agenda intensa do jeito que é. A segunda foi o nome. 

Poderia ser apenas “Blog do Rafa“, ou “Blog do Rafa Dutra“, como costumam me chamar profissionalmente, mas quis trazer de volta o nome de um blog que tive no passado, embora com outra proposta: “Homem em Movimento”.

Este será o nome deste blog, um nome que faz referência ao subtítulo de um livro histórico da Psicologia Social brasileira, organizado pela Silvia Lane e pelo Wanderley Codo, publicado em 1984 pela Editora Brasiliense; e, ao mesmo tempo, diz sobre mim, minha visão de sujeito, da vida e de mundo: em movimento… 

Ainda não sei a periodicidade das publicações, se conseguir um ritmo bom será semanal, se não quinzenal ou até mensal. E isso também não importa muito agora.

Também ainda não sei ao certo o formato, mas como sempre gosto de lembrar: “o caminho se faz ao caminhar“. O que importa agora é tirar do mundo das ideias e tornar concreto, começar. 

Confesso que ainda não sei bem se faz sentido criar um blog em 2026, mas para mim faz, e quero dar boas-vindas a quem quiser chegar comigo por aqui.

Bora lá?!

Forte Abraço!
Rafa Dutra