#TerapiaEmDia

A Psicologia está no hype!

Antigamente era comum ouvir um “não sou louco, não preciso ir no psicólogo“. Aliás, a gente escuta isso até hoje, mas diminuiu bastante. 

O imaginário social a respeito da Psicologia foi construído em cima disso, o trabalho da psicóloga era o trabalho com os desajustados, os anormais, os loucos, ou então era entendida como coisa de gente rica que fazia análise sei lá quantas vezes por semana porque, na verdade, não tinha problema na vida. 

A história da Psicologia é longa, em movimento e cheia de contradições. Enquanto profissão regulamentada no Brasil, tem pouco mais de seis décadas. E neste tempo, muita coisa aconteceu. 

No entanto, de uns tempos pra cá, a Psicologia vem ocupando um outro lugar no imaginário social, com certo destaque e o aumento pela procura, tanto pelo serviço quanto pelo desejo de formação, o que poderia ser visto apenas como algo positivo aos desavisados, mas existem alguns atravessamentos que precisamos pensar. 

Primeiro, o tema saúde mental se impôs como algo que a sociedade precisa discutir e atuar a respeito. Infelizmente, não porque estamos num processo de prevenção e promoção de saúde mental, mas porque estamos afundando numa epidemia de adoecimento. 

Ansiedade, depressão, exaustão, suicídio, burnout, transtornos dos mais variados tipos e estatísticas assustadoras sobre várias questões relacionadas à saúde mental, potencializadas pela Pandemia de 2020, colocaram este tema no lugar de destaque que ele ocupa hoje. 

O problema é que, capturada pela noção neoliberal de sujeito, pela lógica da patologização da vida e pelo ideal da sociedade da performance, a Psicologia tem se prestado, ideologicamente, a um desserviço à sociedade.

Quando digo Psicologia, me refiro à Psicologia tradicional hegemônica, pois felizmente existem Psicologias que atuam a partir de outras perspectivas e oferecem resistência a essa lógica. 

No entanto, é fato que existe uma cumplicidade ideológica que naturaliza e reduz o fenômeno social da produção do adoecimento em saúde mental para uma questão de fazer terapia individual e praticar autocuidado, rebuscado de discurso neuropsi sobre “regular o ciclo circadiano, dopaminas e funcionamento cerebral“, dando aquela roupagem de discurso médico-científico ancorado no poder que o jaleco branco tem em nossa sociedade. 

Hoje em dia, a galera coloca #TerapiaEmDia na descrição de perfil em app de relacionamento, faz storie falando da terapia (até com print da sessão online!), e fazer psicoterapia, além do status social (porque continua sendo algo que a imensa maioria da população não tem acesso), se tornou mais uma tarefa a ser realizada no combo do “performar saúde“. A academia tá paga e a terapia está em dia. 

Se por um lado existe uma maior aceitação e um reconhecimento da importância da Psicologia em nossa sociedade, por outro, é preciso tomar cuidado para que a Psicologia não se preste ao lugar de reproduzir o que vem promovendo o adoecimento, a visão individualizante, culpabilizante e patologizante de saúde mental, com tempero da noção do sujeito-empreendedor-de-si em busca da sua melhor versão tão bem construída pela lógica neoliberal de produzir subjetividades e propagada pelas vidas editadas nas redes sociais. 

Ano passado, assisti uma fala da então candidata e hoje presidente eleita do Conselho Federal de Psicologia, Ivani Oliveira, de que “a Psicologia não poderia se prestar a ajudar as pessoas a suportar o insuportável“. E é preciso fazer essa denúncia! 

Tem sido dificil construir um cotidiano onde o cuidado em saúde mental seja um dos pilares da vida frente aos moldes nos quais a sociedade se organizou.

Fazer terapia” pode ser uma experiência riquíssima, cheia de descobertas, aprendizagens, reflexões profundas, pequenas e grandes transformações, uma grande oportunidade de crescimento, elaboração de um novo projeto de vida, de compreender mais sobre si, sobre as relações e sobre a sociedade, mas também pode ser uma experiência alienante, que reproduz violências e a lógica perversa que constitui o processo de adoecimento que estamos vivendo.

Como diante de todo modismo, é preciso atenção e cuidado, a terapia estar em dia significa o que, afinal?

É preciso uma percepção crítica sobre este fenômeno e, principalmente, um posicionamento crítico frente a isto tudo que esta posto. A Psicologia tem um histórico de (re)produzir ideologias, alienações e violências, e a história se repete. Desta vez, se expressando nos conteúdos em redes sociais, no marketing pessoal, no empreendedorismo psi e na busca por performar saúde mental, sucesso e felicidade.

Que o espaço e o processo da terapia seja um espaço de acolhimento, denuncia, aprendizado e reflexão, mas que seja, principalmente, um espaço de conscientização!

Forte abraço!
Rafa Dutra