{"id":273,"date":"2026-06-13T00:01:00","date_gmt":"2026-06-13T03:01:00","guid":{"rendered":"https:\/\/rafadutra.com.br\/blog\/?p=273"},"modified":"2026-06-13T15:43:06","modified_gmt":"2026-06-13T18:43:06","slug":"a-psicologia-e-as-redes-sociais","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/rafadutra.com.br\/blog\/2026\/06\/13\/a-psicologia-e-as-redes-sociais\/","title":{"rendered":"A Psicologia e as redes sociais"},"content":{"rendered":"\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"427\" src=\"https:\/\/rafadutra.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/@salaabc-44-1024x427.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-275\" srcset=\"https:\/\/rafadutra.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/@salaabc-44-1024x427.png 1024w, https:\/\/rafadutra.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/@salaabc-44-300x125.png 300w, https:\/\/rafadutra.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/@salaabc-44-768x320.png 768w, https:\/\/rafadutra.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/@salaabc-44.png 1200w\" sizes=\"auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p>No Brasil come\u00e7amos com o Orkut, e ali era tudo bem diferente, hoje em dia s\u00e3o muitas e cada hora surge uma nova, mas as redes que as psic\u00f3logas mais utilizam para se divulgarem \u00e9 o Instagram e o TikTok e isso foi, pouco a pouco, se tornando uma grande quest\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Se tornou comum, j\u00e1 na faculdade, as estudantes criarem seus perfis e j\u00e1 come\u00e7arem a tentar construir relacionamento com seus seguidores a fim de construir autoridade e projetar que, no futuro, aquele espa\u00e7o ser\u00e1 um espa\u00e7o para se legitimar enquanto profissional e conseguir alguma oportunidade de trabalho, normalmente atrelado a ideia de estar na Cl\u00ednica e conseguir pacientes.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 poss\u00edvel conseguir pacientes pelas redes sociais? Com certeza! Mas em uma estat\u00edstica emp\u00edrica a partir da conversa e conviv\u00eancia com centenas de psic\u00f3logas, eu ousaria dizer que 90% dos perfis de psic\u00f3logas n\u00e3o conseguem fazer capta\u00e7\u00e3o de novos pacientes.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A imensa maioria desses perfis s\u00e3o constru\u00eddos de maneira muito amadora, al\u00e9m da padroniza\u00e7\u00e3o que os fazem parecer quase todos iguais, com os meus layouts, os mesmos tipos de conte\u00fado, etc. H\u00e1 uma homogeneiza\u00e7\u00e3o em que autenticidade, identidade e autoridade acabam se perdendo.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Grandes empresas &#8211; ou grandes influenciadores &#8211; tem equipes com dezenas de pessoas e investem centenas de milhares de reais em impulsionamento (patroc\u00ednio de postagens) para atingir seus resultados, \u00e9 triste mas existe at\u00e9 uma inoc\u00eancia e uma ingenuidade das psic\u00f3logas em achar que conseguiriam o mesmo resultado fazendo tudo sozinha, sem ser especialista e nem ter conhecimentos gerais b\u00e1sicos em marketing digital, investindo, no m\u00e1ximo, algumas centenas de reais em impulsionamento de postagem.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 um pouco ilus\u00f3rio e, tamb\u00e9m, um pouco \u201ccanto de sereia\u201d que te atrai para o fundo do mar e de l\u00e1 voc\u00ea n\u00e3o volta. Mas este \u00e9 apenas o ponto inicial da discuss\u00e3o, \u00e9 preciso tamb\u00e9m pontuar o impacto que essa superexposi\u00e7\u00e3o que as redes sociais exigem dos seus usu\u00e1rios vai ter na rela\u00e7\u00e3o entre a psic\u00f3loga e seus pacientes.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Tradicionalmente o trabalho da Psicologia sempre contou com a falta de conhecimento do paciente sobre a vida da profissional que o atende como parte, inclusive, da constru\u00e7\u00e3o e da pot\u00eancia dessa rela\u00e7\u00e3o. Com as redes sociais essa barreira se perde. Quanto mais exposi\u00e7\u00e3o da pr\u00f3pria vida, mais o algoritmo entrega. E a\u00ed as profissionais se percebem obrigadas a tentar construir uma l\u00f3gica de <em>influencer<\/em> e tendo que se tornarem \u201cblogueirinhas\u201d, planejar posts criativos para o <em>feed<\/em>, compartilhar sua rotina na esperan\u00e7a de conseguir construir autoridade e, principalmente, conseguir pacientes.<\/p>\n\n\n\n<p>Neste processo, cometem o grande equ\u00edvoco (na minha opini\u00e3o) de tentarem se apresentar como uma autoridade no tema do cuidado em sa\u00fade mental e, sobretudo, um exemplo de algu\u00e9m com sucesso profissional e boa sa\u00fade mental, e v\u00e3o se expondo, editando os recortes de sua vida que refor\u00e7am essa imagem, pois \u00e9 ela quem engaja. Compartilham rotinas de sa\u00fade, de atividade f\u00edsica, de alimenta\u00e7\u00e3o, rotina social, exp\u00f5em filhos, fam\u00edlia, relacionamentos, hobbies, atividades profissionais, gostos culturais, leituras, etc, e v\u00e3o, <em>post<\/em> a <em>post<\/em>, tentando construir uma narrativa de si mesma que, ao meu ver, vai para dentro da sess\u00e3o. Hoje em dia \u00e9 comum a psic\u00f3loga receber um paciente novo porque ele se identificou com ela (e talvez deseje estar com ela ou com algu\u00e9m como ela, ou at\u00e9 ser algu\u00e9m como ela). A psic\u00f3loga passa a ser um ideal a ser seguido\/conquistado&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Consegue enxergar os in\u00fameros problemas nisso? E a\u00ed um trabalho a mais passa a ser desconstruir todas essas expectativas e proje\u00e7\u00f5es, o que nem sempre \u00e9 colocado em pauta ou sequer percebido, de t\u00e3o naturalizado que \u00e9 o papel que essa \u201c<em>persona<\/em> digital\u201d ocupa em nossas vidas. A l\u00f3gica da rede social \u00e9 antag\u00f4nica \u00e0 l\u00f3gica do que \u00e9 esperado de uma psic\u00f3loga, e eu percebo esta discuss\u00e3o e esse embate, inclusive, entre as diferentes gera\u00e7\u00f5es de psic\u00f3logas.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 ineg\u00e1vel que a rede social pode ser um espa\u00e7o potente de divulga\u00e7\u00e3o, marketing pessoal, capta\u00e7\u00e3o de pacientes e at\u00e9 empreendedorismo digital e que algumas psic\u00f3logas est\u00e3o tendo sucesso nessa empreitada, algumas poucas at\u00e9 fazendo muito dinheiro com isso. Mas sabemos que s\u00e3o exce\u00e7\u00f5es e exce\u00e7\u00f5es confirmam a regra. E infelizmente a regra tem sido muito trabalho, muita exposi\u00e7\u00e3o, pouco resultado e muita frustra\u00e7\u00e3o. E \u00e9 justamente disso que os gurus do marketing se aproveitam para vender seus cursos e, junto com eles, vender a promessa de sucesso.<\/p>\n\n\n\n<p>Outro ponto fundamental \u00e9 a produ\u00e7\u00e3o de conte\u00fado em si, fazer um post \u00e9 prestar um servi\u00e7o gratuito de psicoeduca\u00e7\u00e3o e isso exige responsabilidade e cuidados te\u00f3ricos e \u00e9ticos importantes. Infelizmente, a grande massa dos conte\u00fados produzidos por psic\u00f3logas nas redes sociais s\u00e3o conte\u00fados ancorados em uma perspectiva patologizantes de sa\u00fade mental, se fala sobre patologias, sintomas, dicas para identificar diagn\u00f3sticos, dicas de como lidar com determinadas situa\u00e7\u00f5es, tipifica\u00e7\u00e3o de pessoas e se refor\u00e7a, indiscriminadamente, a l\u00f3gica neoliberal do sujeito empreendedor-de-si que tanto tem produzido adoecimento.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Poucos s\u00e3o os perfis que fazem, de fato, uma discuss\u00e3o cr\u00edtica sobre sa\u00fade mental, primeiro porque este discurso n\u00e3o comp\u00f5e as pr\u00e1ticas hegem\u00f4nicas da Psicologia, segundo porque n\u00e3o engaja.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>As redes sociais criaram um trabalho a mais para as psic\u00f3logas e uma necessidade de exposi\u00e7\u00e3o que muitas n\u00e3o querem fazer. A l\u00f3gica de \u201cser uma profissional influencer\u201d al\u00e9m de trazer quest\u00f5es para a pr\u00e1tica profissional, tamb\u00e9m \u00e9 produtora de adoecimento e sofrimento, assim como muitas vezes fazemos escuta, acolhimento e constru\u00edmos estrat\u00e9gias de enfrentamento para o sofrimento que nossos pacientes vivem expostos \u00e0s redes, estamos l\u00e1 n\u00f3s, nos expondo e tentando capturar aten\u00e7\u00e3o e engajamento, \u00e9 um n\u00f3 e uma contradi\u00e7\u00e3o que comp\u00f5e o construir-se psic\u00f3loga nos dias de hoje e que precisamos problematizar.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>O C\u00f3digo de \u00c9tica \u00e9 expl\u00edcito sobre a quest\u00e3o de publiciza\u00e7\u00e3o do nosso trabalho, mas como ele \u00e9 de 2005, muitas resolu\u00e7\u00f5es e orienta\u00e7\u00f5es foram sendo constru\u00eddas pelo Conselho Federal e por diversos Conselhos Regionais para estabelecer limites e possibilidades sobre o como deve ser um existir \u00e9tico das profissionais da Psicologia nas redes sociais.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Os desafios s\u00e3o tantos e o problema se tornou t\u00e3o grande que foi preciso, inclusive, fazer orienta\u00e7\u00f5es para as estudantes de Psicologia, algo in\u00e9dito, uma vez que o Conselho regula apenas as profissionais.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A l\u00f3gica das redes sociais tornou o perfil \u201c.psi\u201d quase compuls\u00f3rio e, infelizmente, poucas s\u00e3o as discuss\u00f5es cr\u00edticas e profundas que vemos sobre esse tema, normalmente as discuss\u00f5es s\u00e3o sobre t\u00e9cnicas e estrat\u00e9gias de como utilizar esta ferramenta para conseguir construir autoridade, ter engajamento, conseguir pacientes e ganhar dinheiro. \u00c9 preciso romper com o comportamento de manada, pensar sobre o que s\u00e3o as redes, o que significa estar nelas falando enquanto psic\u00f3logas e, se decidir estar nelas, entender o porqu\u00ea, o como e o para qu\u00ea quer estar.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>J\u00e1 s\u00e3o uns dez anos vivendo este contexto, neste tempo j\u00e1 vimos de tudo um pouco, felizmente tem bastante coisa legal tamb\u00e9m, mas ainda assim, infelizmente, o discurso e o posicionamento das psic\u00f3logas nas redes tem sido o de refor\u00e7ar muito daquilo que produz o adoecimento aos usu\u00e1rios das redes. <\/p>\n\n\n\n<p>Forte abra\u00e7o!<br>Rafa Dutra<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No Brasil come\u00e7amos com o Orkut, e ali era tudo bem diferente, hoje em dia s\u00e3o muitas e cada hora surge uma nova, mas as redes que as psic\u00f3logas mais utilizam para se divulgarem \u00e9 o Instagram e o TikTok e isso foi, pouco a pouco, se tornando uma grande quest\u00e3o. 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