{"id":260,"date":"2026-06-03T00:01:00","date_gmt":"2026-06-03T03:01:00","guid":{"rendered":"https:\/\/rafadutra.com.br\/blog\/?p=260"},"modified":"2026-06-04T10:22:39","modified_gmt":"2026-06-04T13:22:39","slug":"a-psicologia-e-a-revolucao-digital","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/rafadutra.com.br\/blog\/2026\/06\/03\/a-psicologia-e-a-revolucao-digital\/","title":{"rendered":"A Psicologia e a Revolu\u00e7\u00e3o Digital"},"content":{"rendered":"\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"427\" src=\"https:\/\/rafadutra.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/@salaabc-42-1024x427.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-261\" srcset=\"https:\/\/rafadutra.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/@salaabc-42-1024x427.png 1024w, https:\/\/rafadutra.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/@salaabc-42-300x125.png 300w, https:\/\/rafadutra.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/@salaabc-42-768x320.png 768w, https:\/\/rafadutra.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/@salaabc-42.png 1200w\" sizes=\"auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p>N\u00e3o sou especialista neste tema, e este precisa ser o ponto de partida dessa conversa. Sou um curioso\/interessado na discuss\u00e3o sobre a Psicologia e o mundo digital, e me coloquei o desafio de fazer uma fala de abertura de um evento que discute justamente essa rela\u00e7\u00e3o, ent\u00e3o mergulhei nas minhas pr\u00f3prias reflex\u00f5es, em leituras de artigos, not\u00edcias, resolu\u00e7\u00f5es, cartilhas e tamb\u00e9m em intera\u00e7\u00f5es com IA para pensar o que diria, pois s\u00e3o muitos os caminhos para construir uma reflex\u00e3o. Este texto \u00e9 um ensaio livre e inicial sobre algumas provoca\u00e7\u00f5es que quero compartilhar, sem rigor cient\u00edfico ou qualquer pretens\u00e3o que n\u00e3o seja te colocar a pensar sobre este tema.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Para come\u00e7ar, \u00e9 v\u00e1lido compreender que vamos dialogar duas grandes categorias: a \u201cPsicologia\u201d e o \u201cMundo Digital\u201d, a Psicologia enquanto Ci\u00eancia e Profiss\u00e3o, seus di\u00e1logos com a Filosofia, a Sociologia, a Antropologia e a Medicina, mais recentemente com as Neuroci\u00eancias, uma \u00e1rea do conhecimento cheia de contradi\u00e7\u00f5es &#8211; como tantas outras &#8211; que se dedica a compreender a \u201c<em>psique<\/em>\u201d, o comportamento humano, a constitui\u00e7\u00e3o da subjetividade, os processos cognitivos\/afetivos, as rela\u00e7\u00f5es do ser humano com ele mesmo, com o outro e com o mundo e est\u00e1 no centro da discuss\u00e3o sobre cuidado em sa\u00fade mental.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Por outro lado o mundo digital, um ecossistema tecnol\u00f3gico em que vivemos, composto por redes de dispositivos conectados, plataformas, algoritmos, dados e interfaces que mediam cada vez mais nossas rela\u00e7\u00f5es. Ele n\u00e3o \u00e9 apenas um conjunto de ferramentas externas, mas uma camada de realidade que se sobrep\u00f5e ao mundo f\u00edsico (<em>offline<\/em>) \u2014 e, em muitos aspectos, o reconfigura. O mundo digital \u00e9 hoje o meio social, econ\u00f4mico e simb\u00f3lico predominante em que os processos humanos \u2014 incluindo o ps\u00edquico \u2014 se constituem.<\/p>\n\n\n\n<p>A hist\u00f3ria da humanidade \u00e9 marcada por algumas \u201crevolu\u00e7\u00f5es\u201d que mudaram seu curso, desde a Revolu\u00e7\u00e3o Neol\u00edtica (10.000 A.C.) que foi a transi\u00e7\u00e3o do nomadismo e da ca\u00e7a para a agricultura, a pecu\u00e1ria e a constru\u00e7\u00e3o das primeiras comunidades permanentes de grupos de humanos at\u00e9 a mais recente, a Revolu\u00e7\u00e3o Digital, com a inven\u00e7\u00e3o dos computadores, da internet e da Intelig\u00eancia Artificial, uma Revolu\u00e7\u00e3o que estamos vivenciando <em>in loco<\/em> e que alguns defendem estar sendo um marco de transi\u00e7\u00e3o do <em>\u201chomo sapiens<\/em>\u201d para o <em>\u201chomo digitalis\u201d.&nbsp;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Uma das coisas que chama muita aten\u00e7\u00e3o \u00e9 a velocidade e o tamanho da transforma\u00e7\u00e3o no modo de vida que esta Revolu\u00e7\u00e3o Digital tem produzido. Se a Revolu\u00e7\u00e3o Industrial, que foi a marca de introdu\u00e7\u00e3o do capitalismo como modo de vida predominante da humanidade, durou mais de um s\u00e9culo para se consolidar (s\u00e9culos XVIII e XIX), a Revolu\u00e7\u00e3o Digital em poucas d\u00e9cadas est\u00e1 impactando e transformando todas as esferas de express\u00e3o da experi\u00eancia humana.<\/p>\n\n\n\n<p>A maneira como estudamos, trabalhamos, nos comunicamos, consumimos informa\u00e7\u00f5es, nos divertimos com entretenimento e jogos, compramos produtos e contratamos servi\u00e7os, nos relacionamos social, amorosa e sexualmente, tudo isso foi completamente transformado pela Revolu\u00e7\u00e3o Digital, sobretudo depois da cria\u00e7\u00e3o do <em>smartphone<\/em>, que embora teve vers\u00f5es mais simples desde os anos 90, foi em 2007 com o lan\u00e7amento do Iphone que a tela <em>multitouche <\/em>e os aplicativos passaram de um computador profissional ou residencial para um computador pessoal que acompanha a pessoa em todos os momentos de sua vida. Em menos de duas d\u00e9cadas essa inven\u00e7\u00e3o mudou tudo, e como estamos vivendo intensamente essas mudan\u00e7as, muitas vezes n\u00e3o somos capazes de perceber.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Uma frase conhecida do escritor portugu\u00eas Jos\u00e9 Saramago diz que \u201c<em>para ver a ilha \u00e9 preciso estar fora da ilha<\/em>\u201d, mas n\u00e3o estamos fora da ilha, estamos dentro de todas essas mudan\u00e7as e sendo impactados por todas elas diariamente e a todo instante, metaforicamente, estamos tentando sobreviver e n\u00e3o nos afogar, n\u00e3o conseguimos ver ilha nenhuma.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Esta Revolu\u00e7\u00e3o Digital come\u00e7ou muito timidamente na segunda metade do s\u00e9culo XX com os primeiros computadores gigantes que ocupavam o tamanho de uma sala e ficavam apenas nas empresas e ind\u00fastrias, depois come\u00e7ou ganhar escala nos anos 80 e 90 com os computadores de uso dom\u00e9stico e a chegada da internet e no in\u00edcio dos anos 2000 com os <em>smartphone<\/em>s, as redes sociais, os aplicativos, o e-commerce, etc. Atualmente estamos vivendo a mais recente grande onda desse processo, a Intelig\u00eancia Artificial, um tema pol\u00eamico e controverso que n\u00e3o fazemos muita ideia de qual ser\u00e1 o real impacto e as transforma\u00e7\u00f5es que ir\u00e1 produzir na humanidade.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>Tudo est\u00e1 acontecendo ao mesmo tempo, em todos os lugares e agora. Os dados sugerem que em 2026, 3 a cada 4 pessoas no mundo t\u00eam um <em>smartphone<\/em> e est\u00e3o conectados, vivenciando a presen\u00e7a online. O Brasil \u00e9 o segundo pa\u00eds do mundo em tempo de tela, estima-se que os brasileiros passam 9h por dia nas telas, sendo cerca de 3h nas redes sociais. Esses dados levantados pela \u201c<em>Eletronics Hub<\/em>\u201d s\u00e3o assustadores. Como professor de Psicologia Escolar gosto de fazer as contas de quantas horas a gente passa na escola para mostrar&nbsp; o tamanho do impacto desta institui\u00e7\u00e3o na nossa vida (passamos de 15.000 a 20.000 horas na escola), que s\u00e3o cerca de 18 a 22 anos de nossas vidas. Atualmente passamos mais de 3.000 horas nas telas por ano. Conseguem dimensionar o impacto?<\/p>\n\n\n\n<p>Minha leitura de mundo se constr\u00f3i a partir da Psicologia S\u00f3cio-Hist\u00f3rica, e Silvia Lane fazia uma provoca\u00e7\u00e3o de que as pesquisadoras do s\u00e9culo XXI precisariam estudar o ser humano do s\u00e9culo XXI, pois as pesquisas dos anos 80 e 90 respondiam ao ser humano daquele tempo. A compreens\u00e3o da constitui\u00e7\u00e3o da subjetividade como processo social e hist\u00f3rico nos faz estar sempre repensando sobre um sujeito em movimento e um sujeito de seu pr\u00f3prio tempo. Quem \u00e9 este ser humano que se constr\u00f3i, se relaciona e tem sua experi\u00eancia humana nestes nossos tempos em que a vida dentro e fora do mundo digital se entrela\u00e7am?<\/p>\n\n\n\n<p>Quando come\u00e7amos a ler sobre essa rela\u00e7\u00e3o da Psicologia com o mundo digital, as primeiras coisas que aparecem est\u00e3o mais relacionadas \u00e0s quest\u00f5es das Neuroci\u00eancias, os impactos do tempo de tela no funcionamento cerebral: neuroplasticidade, dopamina, v\u00edcio, perdas na capacidade de concentra\u00e7\u00e3o e mem\u00f3ria. O <em>scroll<\/em> infinito criou um funcionamento cerebral que fica em busca da pr\u00f3xima recompensa.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Uma das not\u00edcias mais famosas dos \u00faltimos anos \u00e9 que em 2024 Oxford definiu \u201c<em>brain rot\u201d<\/em> (apodrecimento cerebral) como a palavra do ano. Uma deteriora\u00e7\u00e3o cognitiva&nbsp; &#8211; literal, e n\u00e3o simb\u00f3lica, pois \u00e9 registrado perda de massa cinzenta &#8211; fruto do excesso de contato com a tela e o mundo digital. Essas s\u00e3o discuss\u00f5es importantes, mas superficiais, rasas, a \u201cponta do <em>iceberg<\/em>\u201d, uma express\u00e3o do problema, e n\u00e3o o(s) problema(s) em si.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>O <em>smartphone<\/em> deixou de ser um instrumento tecnol\u00f3gico que possu\u00edmos e o mundo digital se tornou um ambiente onde vivemos, e a\u00ed as discuss\u00f5es que a Psicologia pode fazer se tornam mais profundas e significativas. Como dito, o mundo digital impactou todas as esferas e rela\u00e7\u00f5es humanas, no \u00e2mbito afetivo, social, cultural, pol\u00edtico, econ\u00f4mico, etc. Simplesmente nada ficou de fora. O mundo <em>online<\/em> se sobrep\u00f5e e reconfigura, tamb\u00e9m, o mundo <em>offline<\/em>, criando uma caracter\u00edstica de estrutura cognitiva-afetiva que nunca vimos antes na Hist\u00f3ria da Humanidade.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>O mundo digital se torna mais um espa\u00e7o\/ambiente onde se constr\u00f3i, elabora e significa a cultura humana, a viv\u00eancia <em>online<\/em> nos humaniza tal qual a experi\u00eancia <em>offline<\/em>, ou melhor, as experi\u00eancias da vida fora do ambiente digital. Nem podemos falar de \u201cvida concreta\u201d e \u201cvida <em>online\u201d<\/em>, pois a vida digital&nbsp; \u00e9 tamb\u00e9m concreta e comp\u00f5e nossa exist\u00eancia no s\u00e9culo XXI.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Os impactos s\u00e3o gigantescos, primeiro o das redes sociais, onde criamos uma \u201cidentidade virtual\u201d e foi se estruturando um tipo de performance nunca antes visto, <strong>a performance da pr\u00f3pria exist\u00eancia<\/strong>. A busca do <em>feed <\/em>perfeito, o medo de estar perdendo algo (FOMO) ou de ficar sem saber alguma not\u00edcia\/novidade, perder alguma oportunidade, a compara\u00e7\u00e3o injusta da totalidade da nossa vida com as vidas editadas e postadas &#8211; dos melhores momentos &#8211; das vidas dos outros, os mecanismos mega elaborados de captura da aten\u00e7\u00e3o e manipula\u00e7\u00e3o para compras &#8211; seja de ideias, seja de produtos.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>De um jeito meio bizarro, o celular se tornou o primeiro objeto que utilizamos ao acordar, o que passamos maior parte do dia e o \u00faltimo que utilizamos antes de dormir. Vamos ao banheiro com o celular na m\u00e3o, isso \u00e9 extremamente sintom\u00e1tico e naturalizado. Ele se tornou uma extens\u00e3o, quase como um \u00f3rg\u00e3o nosso fora do corpo. Como num comportamento coletivo em que \u201c<em>se todo mundo est\u00e1 fazendo, ent\u00e3o \u00e9 normal<\/em>\u201d, n\u00e3o estamos problematizando este fen\u00f4meno e a Psicologia al\u00e9m de precisar tomar esta como uma tarefa urgente, \u00e9 uma das Ci\u00eancias que mais tem a contribuir com essa discuss\u00e3o.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Do ponto de vista do trabalho, o mundo digital explodiu a barreira entre vida pessoal e vida profissional, seja voc\u00ea algu\u00e9m que exerce o trabalho remoto ou n\u00e3o, sem contar a precariza\u00e7\u00e3o do trabalho a partir da l\u00f3gica da plataformiza\u00e7\u00e3o &#8211; que afeta inclusive o trabalho das psic\u00f3logas. O rompimento dessa barreira e a precariza\u00e7\u00e3o se tornaram os grandes respons\u00e1veis pelo alto n\u00edvel de adoecimento advindo da rela\u00e7\u00e3o com o trabalho.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Do ponto de vista da sa\u00fade mental no \u00e2mbito geral os impactos s\u00e3o muito expressivos e n\u00e3o \u00e9 preciso muito esfor\u00e7o para perceber. Os mais vulner\u00e1veis s\u00e3o as crian\u00e7as e os adolescentes, chamados nativos digitais. Depend\u00eancia digital, cyberbullying, ansiedade, depress\u00e3o, viol\u00eancias, exposi\u00e7\u00f5es indevidas, sexualiza\u00e7\u00e3o precoce e muitos outros problemas atravessam essa din\u00e2mica de rela\u00e7\u00e3o entre inf\u00e2ncia\/adolesc\u00eancia e as rela\u00e7\u00f5es mediadas pelo mundo digital.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Para al\u00e9m desta fase da vida, s\u00e3o muitos os fen\u00f4menos mediados pelo ambiente virtual, as bolhas sociais, a polariza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, a viol\u00eancia na internet, as depend\u00eancias, as m\u00e9tricas de valora\u00e7\u00e3o social e autoestima a partir de n\u00fameros de seguidores e engajamento em seus perfis, o estabelecimento de determinadas express\u00f5es de possibilidades de exist\u00eancia, padr\u00f5es de vida, felicidade e sucesso, a misoginia, o racismo, a LGBTfobia e tantas outras viol\u00eancias que encontram no mundo digital uma \u201cterra-ainda-sem-lei\u201d onde literalmente se tem liberdade para cometer crimes.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Nossa viv\u00eancia passa a ser atravessada e determinada por algoritmos que possuem causa pr\u00f3pria e funcionamento que desconhecemos; e mais, esses algoritmos s\u00e3o constru\u00eddos por equipes de empresas que t\u00eam dono e interesses pr\u00f3prios alinhados a determinadas vis\u00f5es de mundo e de ser humano que muitas vezes desconhecemos.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>Percebe como o buraco \u00e9 muito mais embaixo do que \u201c<em>busca por dopamina barata, captura da aten\u00e7\u00e3o e v\u00edcio digital?<\/em>\u201d N\u00e3o que estes aspectos n\u00e3o sejam importantes, mas o buraco \u00e9 realmente mais embaixo. A Psicologia precisa refletir sobre isso, fazer a den\u00fancia do que est\u00e1 acontecendo e criar estrat\u00e9gias de enfrentamento que vai desde o posicionamento pol\u00edtico de regulamenta\u00e7\u00e3o desse ambiente virtual at\u00e9 a preven\u00e7\u00e3o e o trabalho com pessoas que j\u00e1 est\u00e3o enfrentando adoecimentos e sofrimentos graves advindos dessa rela\u00e7\u00e3o patol\u00f3gica com o mundo digital. \u201c<em>10 dicas sobre uma rela\u00e7\u00e3o saud\u00e1vel com as redes sociais<\/em>\u201d pode at\u00e9 ajudar, mas \u00e9 muito pouco, precisamos de muito mais.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>E at\u00e9 aqui falei mais sobre um aspecto do mundo digital, as redes sociais e seus impactos na constru\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es, da identidade, na autopercep\u00e7\u00e3o e na constru\u00e7\u00e3o e manipula\u00e7\u00e3o das subjetividades, quando olhamos para o que podem ser os impactos objetivos e subjetivos da Intelig\u00eancia Artificial d\u00e1 a impress\u00e3o de que n\u00e3o \u00e9 uma nova onda que est\u00e1 chegando, mas um tsunami vindo em nossa dire\u00e7\u00e3o.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A IA \u00e9 um tema pol\u00eamico, ano passado assisti uma palestra do m\u00e9dico, neurocientista e pesquisador brasileiro Miguel Nicolelis em que ele chama a IA de NINA &#8211; Nem Inteligente, Nem Artificial. Ele diz que esse fen\u00f4meno tem sido um dos maiores del\u00edrios da hist\u00f3ria da humanidade, um engodo que criou uma bolha financeira gigantesca num grande culto dos gurus da tecnologia do Vale do Sil\u00edcio.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Ele refuta a ideia de ser \u201cIntelig\u00eancia\u201d porque s\u00e3o apenas mecanismos estat\u00edsticos que processam um grande volume de dados, mas n\u00e3o uma rede neural capaz de processar, significar, tomar consci\u00eancia, compreender causalidade e finalidade, al\u00e9m de ser criativa como a intelig\u00eancia humana. E tamb\u00e9m cr\u00edtica a ideia do \u201cArtificial\u201d pois s\u00e3o ferramentas que se alimentam de dados produzidos pelos humanos e que s\u00e3o treinadas tamb\u00e9m por seres humanos (normalmente trabalhadores invisibilizados, hiper precarizados e super explorados pelas Big Techs).&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>E pior, ele aponta o risco de que o uso desenfreado e acr\u00edtico das IAs pode, ao inv\u00e9s de potencializar a capacidade cognitiva de um indiv\u00edduo, reduzi-la. E como fen\u00f4meno de massa, reduzir a capacidade da humanidade de compreender e intervir sobre a natureza e a realidade que temos constru\u00eddo. Nicolelis faz uma defesa do c\u00e9rebro biol\u00f3gico que, na vis\u00e3o dele, opera com princ\u00edpios de plasticidade, criatividade e causalidade que nenhum modelo estat\u00edstico seria capaz de replicar.<\/p>\n\n\n\n<p>Outro intelectual bastante conhecido, o fil\u00f3sofo Noam Chomsky, diz que a IA nada mais \u00e9 do que uma grande ferramenta de \u201cpl\u00e1gio sofisticado\u201d, capaz de imitar a forma do racioc\u00ednio humano, mas incapaz de compreender a causalidade, a inten\u00e7\u00e3o ou a verdade, ou seja, sem qualquer modelo do mundo que se aproxime do conhecimento humano.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>No come\u00e7o tudo parece uma grande brincadeira, fazer imagem, v\u00eddeo, um trabalho da escola, apoio para uma pesquisa, e aos poucos vemos empresas j\u00e1 substituindo boa parte de suas equipes, acelerando o processo de cria\u00e7\u00e3o dos \u201cAgentes de IA\u201d para executar parte do trabalho e, na contram\u00e3o da Revolu\u00e7\u00e3o Industrial, em que a tecnologia das m\u00e1quinas acabou com a for\u00e7a de trabalho manual, esta Revolu\u00e7\u00e3o Digital est\u00e1 atacando diretamente o trabalho intelectual. Tudo aquilo que tem processo definido, protocolo e opera\u00e7\u00e3o repetitiva que pode ser automatizada, ser\u00e1 facilmente substitu\u00eddo pela IA, dizem. E o campo da sa\u00fade mental n\u00e3o est\u00e1 imune a esta avalanche, pelo contr\u00e1rio, j\u00e1 est\u00e1 sob ataque!<\/p>\n\n\n\n<p>Para finalizar este ponto, \u00e9 preciso trazer a discuss\u00e3o sobre colonialismo digital, uma nova express\u00e3o da l\u00f3gica colonial t\u00e3o conhecida na hist\u00f3ria da humanidade, em que os pa\u00edses colonizadores ocupavam territ\u00f3rios, roubavam os bens e mat\u00e9rias-primas que interessavam, impunham sua l\u00edngua e sua cultura e estabeleciam uma rela\u00e7\u00e3o de poder e submiss\u00e3o entre o pa\u00eds colonizador e o pa\u00eds colonizado. No colonialismo digital, grandes corpora\u00e7\u00f5es tecnol\u00f3gicas, sobretudo dos Estados Unidos, det\u00e9m o poder e o controle sobre infraestruturas, plataformas, algoritmos e fluxos de dados que moldam a vida de bilh\u00f5es de pessoas no mundo todo.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao inv\u00e9s de explorar recursos naturais, o colonialismo digital opera pela extra\u00e7\u00e3o de dados, pela padroniza\u00e7\u00e3o de comportamentos e pela imposi\u00e7\u00e3o de modelos culturais, lingu\u00edsticos e econ\u00f4micos que marginalizam saberes locais e refor\u00e7am desigualdades hist\u00f3ricas.&nbsp; A l\u00f3gica do colonialismo digital se traduz numa esp\u00e9cie de extra\u00e7\u00e3o de dados sobre os usu\u00e1rios que s\u00e3o utilizados pelas Big Techs para atender seus pr\u00f3prios interesses, criando uma homogeneiza\u00e7\u00e3o cultural ao impor padr\u00f5es culturais de modo de vida, felicidade e sucesso. Al\u00e9m, claro, do aspecto econ\u00f4mico e da rela\u00e7\u00e3o de depend\u00eancia. Uma vez que dependemos da infraestrutura e das plataformas estrangeiras e n\u00e3o temos autonomia ou soberania digital. O dinheiro e as decis\u00f5es v\u00e3o, principalmente , para grandes corpora\u00e7\u00f5es privadas do Vale do Sil\u00edcio.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 um cen\u00e1rio bastante complexo e \u00e9 preciso aten\u00e7\u00e3o, estamos vivenciando em tempo real uma das maiores, mais r\u00e1pidas e mais impactantes revolu\u00e7\u00f5es que a humanidade j\u00e1 viveu em sua hist\u00f3ria e todas as \u00e1reas do conhecimento precisam se implicar para contribuir na compreens\u00e3o, na regulamenta\u00e7\u00e3o e na condu\u00e7\u00e3o desse processo. Como todo processo social e hist\u00f3rico, esta Revolu\u00e7\u00e3o Digital \u00e9 feita por pessoas que t\u00eam valores e interesses pr\u00f3prios, n\u00e3o podemos nos esquecer disso.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A Psicologia hegem\u00f4nica muito alinhada a uma Neuroci\u00eancia acr\u00edtica biom\u00e9dica tem focado apenas na parte da depend\u00eancia digital, no tratamento dos v\u00edcios, na compreens\u00e3o dos impactos no funcionamento cerebral e na produ\u00e7\u00e3o de sugest\u00f5es saud\u00e1veis da rela\u00e7\u00e3o entre o sujeito e esta ferramenta digital. Esta Psicologia ainda n\u00e3o percebeu que o que est\u00e1 acontecendo est\u00e1 mexendo com a totalidade da vida humana e impactando toda a estrutura de conviv\u00eancia e constru\u00e7\u00e3o de subjetividades e rela\u00e7\u00f5es dos seres humanos do s\u00e9culo XXI. E isto n\u00e3o est\u00e1 acontecendo dentro de uma perspectiva democr\u00e1tica, emancipat\u00f3rio e de constru\u00e7\u00e3o de sa\u00fade, mas sim, dentro de uma perspectiva colonizadora de domina\u00e7\u00e3o, explora\u00e7\u00e3o e padroniza\u00e7\u00e3o que tem adoecido bilh\u00f5es de pessoas.\u00a0\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 preciso que a Psicologia v\u00e1 al\u00e9m, traga muitas outras provoca\u00e7\u00f5es, den\u00fancias, reflex\u00f5es e, sobretudo, que n\u00e3o caia, mais uma vez na leitura individualizante e biom\u00e9dica de tratamento individual de pessoas que apresentam determinados sintomas inerentes a esta rela\u00e7\u00e3o dos seres humanos que se constroem na interface entre a vida dentro e fora do mundo digital &#8211; isso enquanto ainda existe vida dentro e fora, h\u00e1 quem diga que em breve ser\u00e1 tudo uma coisa s\u00f3. H\u00e1 um fen\u00f4meno social em curso, precisamos compreender por esta perspectiva e n\u00e3o podemos individualizar, patologizar e culpabilizar as pessoas diante dessas quest\u00f5es.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Assim como com a universaliza\u00e7\u00e3o do acesso \u00e0 Educa\u00e7\u00e3o passamos todos a ter uma \u201c<em>subjetividade escolarizada<\/em>\u201d, com esta Revolu\u00e7\u00e3o Digital que estamos vivendo, estamos passando a ter uma \u201c<em>subjetividade algoritmizada<\/em>\u201d, e a Psicologia precisa, urgentemente, se dedicar a pensar e enfrentar este fen\u00f4meno que j\u00e1 mostra profundos impactos e graves danos \u00e0 sa\u00fade mental da popula\u00e7\u00e3o. Penso que esta \u00e9 tarefa n\u00e3o apenas para as entidades e associa\u00e7\u00f5es da Psicologia ou para as pesquisadoras que est\u00e3o na Academia fazendo suas inicia\u00e7\u00f5es cient\u00edficas, seus TCCs, seus mestrados e doutorados, mas tamb\u00e9m para toda psic\u00f3loga em qualquer \u00e1rea de atua\u00e7\u00e3o psi. Esta \u00e9 uma tarefa que atravessa cada um e cada uma de n\u00f3s!<\/p>\n\n\n\n<p>Sabemos que o conhecimento da Psicologia \u00e9 utilizado neste processo de design de interface e experi\u00eancia do usu\u00e1rio com objetivos claros de captura de aten\u00e7\u00e3o, aumento de tempo de tela e manipula\u00e7\u00e3o da tomada de decis\u00e3o para compras, e precisamos fazer o contraponto a isso. A Psicologia j\u00e1 foi &#8211; e ainda \u00e9 &#8211; c\u00famplice de uma s\u00e9rie de problemas sociais na hist\u00f3ria da humanidade. J\u00e1 foi c\u00famplice do higienismo, da eug\u00eania e da l\u00f3gica manicomial, \u00e9 c\u00famplice da l\u00f3gica patologizante e medicalizante de cuidado em sa\u00fade mental, e n\u00e3o podemos nos tornar c\u00famplices da manipula\u00e7\u00e3o de subjetividades, da plataformiza\u00e7\u00e3o da vida e da coloniza\u00e7\u00e3o digital.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>Onde se expressam tentativas de controle social, temos a Psicologia envolvida, e precisamos construir uma Psicologia que fa\u00e7a uma leitura cr\u00edtica e se posicione p\u00fablica, cient\u00edfica e politicamente diante deste grande fen\u00f4meno que estamos vivenciando e que precisamos compreender e enfrentar.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Ainda que para \u201cver a ilha seja preciso estar fora dela\u201d, sabemos que neste caso n\u00e3o ser\u00e1 poss\u00edvel \u201csair da ilha\u201d, mas precisamos construir algum lugar onde seja poss\u00edvel enxergar melhor o que est\u00e1 sendo a Revolu\u00e7\u00e3o Digital e seus impactos nas pessoas e nas rela\u00e7\u00f5es sociais.<\/p>\n\n\n\n<p>Este, talvez, seja um dos maiores desafios da Psicologia do s\u00e9culo XXI!<\/p>\n\n\n\n<p>Forte abra\u00e7o!<br>Rafa Dutra<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>N\u00e3o sou especialista neste tema, e este precisa ser o ponto de partida dessa conversa. 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