Cadê a pessoa?

“Eu não acho, não acho”. A voz aflita de B no celular me alarma. Há meses eu só uso o aparelho para pegar recados ou ligar para amigos com a mesma operadora. Mas, por esquecimento, ele estava ligado, e o nome dela apareceu na tela, junto com o toque de urgência que me faz detestar celulares. Atendi. E, desta vez, era uma urgência. Passei muito tempo sem ver B, anos, e um dia, neste último fevereiro, nos encontramos em um curso de literatura russa. Isaac Bábel, mais especificamente, nos uniu de novo. “O que você não acha?”, perguntei, com certa precaução na voz. B é talvez mais intensa do que eu e está sempre às voltas com dilemas que não estão nos jornais. “A pessoa”, ela disse. “Eu não acho a pessoa.”

Fui na hora tomada por uma golfada de felicidade. Ela não estava aflita porque perdera o informe do imposto de renda enviado pelo banco, ou seus brincos de pérola, ou um vinil dos Secos & Molhados. Não. B perdera a pessoa.

“Hum”, fiz eu, em boa performance psicanalítica. B explicou-me então que não sabia quando perdera a pessoa, mas podia localizar o momento exato em que descobrira que a tinha perdido. Ela tomava um chocolate quente e tentava ler as notícias do jornal. O Cachoeira, o Demóstenes, a mulher amantíssima do Cachoeira, a votação das cotas raciais no Supremo, a popularidade da Dilma, o Código Florestal…

Neste ponto da leitura, B havia corrido ao Twitter para entrar na campanha “Veta Dilma. Veta Tudo”. Engatou alguns diálogos de 140 caracteres com desconhecidos conhecidos, deu alguns cliques e, quando voltou a tomar um gole de chocolate, percebeu que o leite esfriara. Foi nesse instante, me garantiu ela, que descobriu que tinha perdido a pessoa.

B tinha acabado de ler um conto e um romance russos. O famoso “A dama do cachorrinho”, de Tchekhov, e o “Oblómov”, de Ivan Gontcharov. A combinação dos dois fez com que uma lâmpada se acendesse dentro de B – e, de súbito, ela descobriu o que não estava mais lá. A pessoa.
Em “A Dama do Cachorrinho”, Tchekhov nos mostra, através de uma história de amor, que temos duas vidas: uma visível, assumida, às claras; e outra secreta. Uma “evidente”, “cheia de verdades convencionais e de mentiras convencionais”, exatamente igual a de todos; e outra que transcorre nos vãos.

No caso do personagem de Tchekhov, tudo o que era para ele indispensável, relevante e sincero, tudo o que não era engano, se passava no escuro de si. E tudo o que era “sua mentira, sua casca, na qual ele se escondia para encobrir a verdade”, como seu trabalho no banco, as discussões no clube, os compromissos sociais com a esposa, tudo isso era visto e compreendido como se fosse ele – mas era apenas aquilo que o ocultava.

Nesse ponto, B começou a chorar. “Não vale a pena ter uma vida em que o mais importante de mim precise respirar nas sombras”, dizia. “Meus eus devem coincidir.” Havia uma nota tão rascante em seu choro, como uma porta enferrujada por anos que começa a se abrir à força.“Você é tudo isso”, eu disse, numa tentativa de consolo. “Inclusive essa máscara social que você usa para que o mundo não te mastigue.”

B apenas chorou mais. “Você não está entendendo. Eu não estou recusando o contraditório de mim. Eu estou recusando essa máscara que me torna alguém plano e palatável. Vale a pena viver escondendo as verdades que mais me importam?” B agora tinha raiva, e apontava essa raiva para mim. Ela continuou: “Se o mundo quiser me mastigar, que mastigue. Mastigará carne, e não um cupcake.” Desta vez, eu apenas disse: “Estou indo praí”.

Encontrei B estatelada no sofá, olhando para o teto. O rosto inchado de choro, mas já com o peito subindo e descendocom regularidade. Eu não havia lido o “Oblómov”, porque nunca encontrei uma tradução para o português que me animasse. Mas sabia que era uma sátira sobre a imobilidade da aristocracia russa em meados do século XIX, diante dos acontecimentos que precederam e anunciaram a revolução de 1917.

Não para B.

Durante mais ou menos 150 páginas de romance, Oblómov não sai do seu sofá. Incapaz de agir e de escolher, o personagem se imobiliza. Como B, no momento em que me conta sobre ele. Oblómov recebe visitas de pessoas que representam diferentes papéis no espectro da sociedade da época. E, quando essas pessoas lhe contam do mundo, lhe contam do mundo por suas ações e pelas ações de outros, Oblómov só faz pensar: “Cadê a pessoa?”.

Pensei que B estava adivinhando sentidos no romance que só faziam sentido em seu estado delirante. Mas, dois dias depois do enigmático telefonema de B, eu me distraía com um livro bastante delicioso chamado “Os possessos – aventuras com os livros russos e seus leitores” (Leya), quando descobri que a autora, Elif Batuman, tinha lido “Oblómov” com um olhar muito semelhante ao de B.

Em seu livro, Batuman, uma americana de origem turca que hoje vive em Istambul, entrelaça os escritores russos e seus protagonistas com os personagens contemporâneos do mundo acadêmico que inventam sentidos para suas vidas a partir da interpretação de suas obras. E o faz com humor, sensibilidade e sarcasmo. Sorri ao pensar que B e eu também cometíamos um pequeno enredo desatinado, às voltas com os russos que nos uniram por acaso depois de tanto tempo.

Batuman afirma, em um dos ensaios do livro: “Vejo agora que o problema da pessoa era a chave da preguiça de Oblómov. Ele é tão avesso a se reduzir a soma das ações que decide sistematicamente não agir– e desse modo revelar mais inteiramente sua verdadeira pessoa, e deleitar-se nela, não adulterado”. Publicado em 1859, “Oblómov” quase coincide, no tempo, com a obra-maravilha do americanoHerman Melville: “Bartleby, o escriturário”, livro que faz parte dos meus amores mais profundos. Como Oblómov, mas diferente dele, Bartleby a tudo apenas dizia: “Prefiro não fazer”.

Assim é descrita uma das visitas recebidas por Oblómov em seu já mítico sofá. “Um antigo colega do serviço público conta a Oblómov da sua recente promoção a chefe de seção, seus novos privilégios e responsabilidades. ‘Com o tempo ele será um figurão e conseguirá um alto posto’, Oblómov pondera. ‘Isso é o que a gente chama de uma carreira! Mas como requer pouco da pessoa: sua mente, seu desejo, suas emoções não são necessárias.’ Esticando os membros, Oblómov sente-se orgulhoso por não ter relatórios a preencher e pelo fato de ali no sofá ‘haver amplo espaço tanto para as suas emoções como para a sua imaginação’. ”

Um século e meio mais tarde, B, no sofá da sala de seu apartamento de classe média paulistana, encarna Oblómov à sua própria maneira: “Cadê a pessoa?”. Ou: “Perdi a pessoa!”. B conta-me que se sente exposta, toda virada pra fora, uma mulher em seu avesso. Nos últimos anos ela se tornara uma personagem das redes sociais. E , desde que nos reencontramos, tenta me convencer a entrar no Facebook. B gosta de viver em rede e está longe de ser uma solitária que achou um jeito de existir na internet. Apenas que ela pensara ter se feito presente ali mais do que em qualquer outra geografia. Mas, de repente, B não mais se reconhece no personagem que criou. “Virei uma prisioneira”, ela diz. “Do quê?”, pergunto eu, a essa altura já bastante perturbada. “Dessa persona pública que me tornei. Todo mundo me conhece, e eu me desconheço.”

B descobrira que era uma pessoa – sem pessoa. “Estou reduzida a ações, a verbos. Virei um noticiário, eu, que nunca acreditei em fatos. Mesmo quando analiso, quando infiro, quando relaciono… são ações. É um eco, só um eco. Não sei mais onde está a voz que o gerou.” Diante dela, eu tentava descobrir a pessoa em mim que poderia resgatar a pessoa de B. Aquilo que me levara a deixar a minha casa no meio de uma manhã de trabalho para ajudá-la a procurar não o passaporte ou o título de eleitor, mas a pessoa que havia se desgarrado dela. Encolhi-me na poltrona, antes de arriscar. “Ninguém te conhece. E você não conhece ninguém”, disse. E minha voz saiu mais aguda do que eu planejara. “São poucos os que podem nos conhecer, o resto é o bando que se alimenta e se protege mutuamente, ferindo quem for preciso para não ter sua posição ameaçada. Você quer ofertar seu corpo verdadeiro para que o canibalizem?”

Eu também estava confusa. “Há uma escuridão, e eu sou essa escuridão”,repetia B. “E lá, em algum ponto desse buraco negro, há uma pessoa que grita, mas ela está presa na nuvem. A conexão se perdeu, eu me perdi.” Percebi que B, minha amiga mais presente, no presente, a mais pública, a mais conectada sentia-se incorpórea. Sentia-se uma pessoa sem pessoa – e também sem corpo.

Quando juntas estudávamos a obra de Isaac Bábel, eu e B havíamos chorado ao tomarmos conhecimento da lista dos pertences encontrados no apartamento do escritor, em Moscou. Bábel fora preso pela polícia de Stálin. Seus manuscritos foram confiscados, seu nome apagado de enciclopédias, dicionários literários e roteiros de cinema, seus óculos quebrados, seu corpo torturado e, até ser executado por um pelotão de fuzilamento, tudo o que ele pedia era: “Deixem-me concluir minha obra”. Os manuscritos de Bábel desapareceram, e ele será sempre um homem inconcluso – como todos nós e, de certo modo, mais que todos. Mas o que fez eu e B nos comovermos para além da brutalidade do regime de Stálin, que executara também as letras de Bábel,foi descobrir no espólio do escritor“um pato de banho”.

Se a pessoa de Bábel estava em algum lugar, pensei, era naquele pato de borracha. Sem saber o que fazer, lançada na claridade pela lucidez excessiva de B, agarrei forte a sua mão. Agarrei para machucar, para que B sentisse as minhas unhas. Eu sabia que, se a “pessoa” de nós estava em algum lugar, era naquele toque que nos impedia de submergir no que o personagem de Tchekhov chamou de “verdades convencionais e mentiras convencionais”.

Não me parece que B seja a única a vagar por aí gritando: “Cadê a pessoa?”. Por isso pedi a ela autorização para contar da sua perda a vocês. B a deu na hora. Mas quando lhe perguntei se poderia colocar seu nome, ela negou com veemência: “Se você revelar meu nome, eu perderei a pessoa para sempre. A pessoa está fora do nome”.

Por Eliane Brum

Este é um dos poucos blogs que acompanho e leio semanalmente, o antigo Nossa Sociedade tornou-se o Palavra-Chave, mas Eliane continua com seus ótimos textos que dispensam maiores comentários. Mas ainda assim, gosto de comentar…

Cadê a pessoa? Quantos estão se fazendo essa pergunta? Onde fui parar? O que fiz com a minha vida, e o que minha vida fez de mim?

Penso nos jovens que estão dando os primeiros passos da construção de suas vidas, penso naqueles de meia idade, que muito já fizeram e muito ainda tem por favor, e penso naqueles que se aproximam do crepúsculo, será que é possível viver essa vida urbana contemporânea sem se perguntar: Cadê a pessoa?

Forte Abraço!

Rafa Dutra

 

 

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Mais que mil palavras…

Uma imagem vale mais do que mil palavras...

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Pensa aí!

“Sem a curiosidade que me move, que me inquieta, que me insere na busca, não aprendo nem ensino”.

Paulo Freire

 

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Virada Cultural

Nos próximos dia 05 e 06 de maio, acontecerá mais uma vez a Virada Cultural na cidade de São Paulo. Vale a pena entrar no site, conferir a programação e participar: www.viradacultural.org

Virada Cultural é a festa de rua da cidade de São Paulo.

Um evento gratuito que atrai anualmente um público circulante de milhões de pessoas durante 24 horas de programação cultural ininterrupta.
Organizada pela Secretaria Municipal de Cultura, este encontro cultural reúne as diferentes classes sociais, todas as faixas etárias, inúmeras tribos, numerosas platéias, todos os horários.

Participe e compartilhe!

Forte Abraço!

Rafa Dutra

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O vencedor – Los Hermanos

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É preciso entrar no mundo deles!

Cada vez mais escuto pessoas fazendo essa pergunta: Quem é o adolescente de hoje? E normalmente ela vem acompanhada de comentários como “Na minha época não era assim…”, “Quanto eu era adolescente…”, “No meu tempo as coisas eram diferentes…”, etc.
Pensar a adolescência não é algo simples. Estamos acostumados a nos prender nos clichês de que a adolescência é uma fase de rebeldia e de muita confusão, e ao mesmo tempo a nomeamos como “a melhor fase da vida”, ou seja, não sabemos muito bem como definir essa fase da vida.
Quando pedimos para alguém nos dizer quais são as características da adolescência ouvimos que essa é a fase em que ocorrem transformações significativas no corpo, no comportamento, que os interesses e os gostos mudam e que se ressignifica a identidade e os pais. Você concorda que essas características nos dizem bastante a respeito da adolescência?
Eu não!
Acredito que tais características não me dizem absolutamente nada sobre a adolescência, elas dizem apenas quais são as mudanças que ocorrem em momentos de transição. Se pararmos para pensar, perceberemos que essas mesmas características se aplicam as mudanças que ocorrem na transição do bebê para a criança, da criança para o adolescente, do adolescente para o adulto e do adulto para o idoso; essas mudanças se repetem como um ciclo de transformações que vivenciamos em diferentes momentos de nossa vida.
E uma vez que tais características nada nos dizem a respeito da adolescência, voltamos à pergunta do começo do texto: O que é ser adolescente hoje? Ter a consciência de que não sabemos a resposta é o primeiro passo. Acredito que apenas os adolescentes podem nos dar essa resposta, os não-adolescentes (seja da idade que for) são estrangeiros a esse momento, e por mais que tenham sensibilidade, estudem e busquem se apropriar do tema, as teorias não nos ajudam tanto a entender quem são os adolescentes, não é mesmo?
E justamente por apenas eles saberem nos dar essa resposta, precisamos nos aproximar, dialogar, nos esforçar para entrar nesse universo e a partir deles compreender quem são os adolescentes hoje. Com certeza não são os mesmos adolescentes de 10, 20 ou 50 anos atrás, embora muitas coisas possam continuar parecidas.
Muitas vezes queremos que eles conheçam o que era bom em “nossa época”, mas não nos interessamos em conhecer o que eles consideram bom na época deles, e esse movimento de buscar a resposta junto com eles é indispensável aos pais, avós, professores e todos aqueles que convivem com pessoas dessa idade.
Você quer saber quem é o adolescente hoje? Se aproxime mais de seu filho, converse com ele, pergunte a ele, pois apenas eles saberão nos dar essa resposta. É preciso entrar no mundo deles! Boas conversas!

Forte Abraço,

Prof. Rafa Dutra

Texto escrito para a minha coluna no Fênix em Foco, jornal virtual do Colégio Fênix Santa Paula.

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Tudo pode dar certo

Boris Yellnikoff (Larry David) é um velho rabugento que tem o hábito de insultar seus alunos de xadrez. Ex-professor da Universidade de Columbia, ele considera ser o único capaz de compreender a insignificância das aspirações humanas e o caos do universo. Um dia, prestes a entrar em seu apartamento, Boris é abordado por Melodie St. Ann Celestine (Evan Rachel Wood), que lhe implora para entrar. Ele atende ao pedido, a contragosto. Percebendo sua fragilidade, Boris permite que ela fique no apartamento por alguns dias. Ela se instala e, com o passar do tempo, não aparenta ter planos de deixar o local. Até que um dia lhe diz que está interessada nele.

A sinopse do filme não chamou muito a minha atenção, no entanto acho que é um filme que vale a pena ser visto. Pelo teor cômico e altamente sarcástico que aborda diversas questões da condição humana: os relacionamentos, as escolhas, as crenças, as possibilidades de transformação, o sofrimento, o pessimismo, etc. Risadas são garantidas e pela proposta provocativa é impossível não (re)pensar em algumas coisas. Um filme diferente, que fica como sugestão…

Forte Abraço!

Rafa Dutra

 

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Os desafios da terapia – Irvin D. Yalow

Primeira sugestão de livro por aqui, muito bacana!

Fácil de ler e com dicas e situações bacanas reveladas pelo autor, como diz o subtítulo: reflexões para pacientes e terapeutas! Yalom é psiquiatra, autor do romance “Quando Nietzsche chorou” e possui diversos livros que contam histórias de psicoterapia que nos fazem sentir dentro de uma sessão. Revela seus acertos, seus erros e possui uma grande experiência com mais de 40 anos como terapeuta e pesquisador.

Recomendo esse livro não apenas para estudantes e psicólogos, mas também para os pacientes. Como disse uma amiga não psicóloga: “é bacana a gente saber o que se passa do lado de lá“. Muitas vezes, o mistério permeia o que acontece dentro da sala de terapia, existe um “q” de enigma e Yalom aborda diversos temas de maneiras muito interessantes e com uma escrita simples e direta.

Gostei bastante e recomendo!

Forte Abraço!

Rafa Dutra

 

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“Youtube, Youthink”

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Como me tornei terapeuta?

Caros leitores,

Escrevo aqui a primeira carta da coluna “Cartas de um jovem terapeuta”. O nome da coluna é uma brincadeira com o título do livro de Contardo Calligaris “Cartas a um jovem terapeuta”, essa coluna será escrita em forma de cartas, sempre orientada por uma (ou mais) pergunta(s) que falam sobre diferentes temas relacionados ao início dessa vivência como “terapeuta”.

Sou psicólogo, fiz meus primeiros atendimentos durante a minha formação na faculdade aos 19 anos e logo depois de formado abri meu consultório, aos 22. Hoje, próximo dos 27, ainda me considero um “jovem terapeuta”, e escolhi criar esse espaço para dividir um pouco minhas experiências, as dúvidas, os erros, as conquistas, as inseguranças, e principalmente a minha forma de perceber a Psicologia Clínica e a atuação do psicólogo, que a cada ano vem se modificando.

Saí da faculdade com muitas certezas, e com a vivência as certezas foram se dissolvendo, gerando movimento e me fazendo ir atrás de novas respostas, outras possibilidades; e hoje me vejo nesse movimento, ainda construindo minha identidade enquanto terapeuta, e com a crença e a esperança de que sempre seja assim, em movimento, em construção!

Para esta primeira carta a pergunta que apresento é “Como me tornei terapeuta?”.

Confesso que minha experiência na Psicologia Clínica durante meu último ano de graduação não foi boa. Não concordava com o que tinha que fazer, com a forma de atendimento, a forma de registro, e as mais diversas regras que precisava seguir. Hoje compreendo melhor o porquê de tudo aquilo, mas continuo discordando de grande parte.

Com isso, o atendimento “clínico” me gerou certa frustração e não me despertou muito interesse, e nesse momento vivia em lua-de-mel com a Psicologia do Esporte. Quando montei, junto com amigos e psicólogos, o “Espaço da Psicologia”, meu objetivo inicial era ter um local para atender atletas. Mas então recebi um primeiro encaminhamento de um caso clínico e a justificativa para começar a empreitada na Psicologia Clínica não foi nada romântica, eu estava formado em Psicologia, com um consultório pronto e pago, precisando de grana e resolvi “experimentar”.

Muitos podem julgar isso um ato de irresponsabilidade, alias, trata-se a clínica com “tantos dedos” que quase tudo pode parecer um ato de irresponsabilidade, mas eu não considerava esse “experimentar” uma irresponsabilidade, eu havia me formado, conhecia Psicologia, recebi o encaminhamento de meu próprio psicólogo que me acompanhou durante toda a minha graduação e tinha a certeza de que na pior das hipóteses eu não conseguiria ajudar aquela pessoa que chegava até mim, mas que não a prejudicaria.

Olhando para trás penso que talvez tenha existido um pouco de irresponsabilidade sim, mas talvez uma irresponsabilidade necessária para nos lançarmos diante do novo, do desconhecido. Tenho colegas de sala que hoje, depois de alguns anos formados, ainda têm medo e nunca se sentem “preparados” para atender, estudam, fazem cursos, às vezes mais de uma pós-graduação e simplesmente não conseguem atender, acredito que a eles falta essa “irresponsabilidade” de se lançar, de experimentar.

Dessa forma, aceitei esse paciente,  nos primeiros atendimentos muitas vezes  me lembrava de minha supervisora da faculdade e me dava certo prazer pensar que ela discordaria de grande parte daquilo que eu fazia, pude me encontrar com outro referencial teórico, com outra forma de estabelecer a relação terapeuta-paciente, pude iniciar a construção de minha identidade e me descobrir como psicólogo clínico, algo que não consegui na graduação. E realmente gostei do que vivi.

Depois vieram outros encaminhamentos, e aos poucos comecei a fazer os atendimentos clínicos, mais até do que os atendimentos esportivos. Ao longo do tempo me apaixonei pela prática clínica, cheguei a questionar se continuaria na Psicologia do Esporte, mas a cada ano cresce o desejo de me aperfeiçoar e continuar essa jornada na clínica.

Meu início como terapeuta não foi nada romântico, não foi algo que sempre sonhei, ou que me preparei intencionalmente durante toda a faculdade, embora ao longo de minha história tenha desenvolvido diversas habilidades e competências que me levaram à clínica, inclusive essa postura de me arriscar, de experimentar, que foi fundamental para que eu desse o primeiro passo, confiando em minha intuição.

Acho bacana expor isso em minha primeira “carta”, até mesmo para desmistificar um pouco esse “ser terapeuta” que muitas vezes é colocado em um patamar que não deveria. Terapeutas são pessoas como as outras pessoas, pode-se até dizer que existe sim uma questão de “dom”, mas assim como existe esse “dom” para as mais variadas profissões.

De certo modo, gosto de como foi minha entrada nesse universo, assim como gosto da forma como fui amadurecendo enquanto profissional e enquanto pessoa ao longo dos atendimentos e das experiências compartilhadas com as pessoas que atendo. Gosto de não colocar o terapeuta naquele papel de “especial”, terapeutas são pessoas comuns (na maior parte das vezes), e no meu caso, a “clínica” entrou em minha vida, eu não fui atrás dela, apenas a aceitei e resolvi experimentá-la.

Enfim, foi assim que me tornei “terapeuta”, no sentido de iniciar meu trabalho enquanto psicólogo clínico, e claro que muito aconteceu desde então, mas esses são assuntos para as próximas cartas. Se quiserem enviar perguntas serão bem vindas, quem sabe consigo fazer essa coluna ser mais interativa que as demais!

Forte Abraço!

Rafa Dutra

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